Meio milhão de pessoas cruzaram essa selva a pé e o mundo mal ficou sabendo

Existe uma selva que conecta América do Sul e América Central que a maioria das pessoas nunca vai visitar e que, ao mesmo tempo, já foi atravessada a pé por mais de meio milhão de pessoas em um único ano. Ela fica entre a Colômbia e o Panamá, não tem estradas, não tem pontes, não tem sinal de celular. Tem cobras, rios com correnteza traiçoeira, grupos armados e o calor úmido de uma floresta tropical que pode durar até quinze dias de caminhada. Seu nome é Darien Gap, ou Tapón del Darién, e se tornou, nos últimos anos, uma das rotas migratórias mais perigosas e mais movimentadas do planeta. E obviamente, um lugar que a imensa maioria das pessoas desconhece, já que a mídia não costuma falar sobre.
Quem passa por ali não vai a passeio. São venezuelanos, haitianos, equatorianos, colombianos, e também pessoas vindas da Ásia e da África, todos com um destino em mente: os Estados Unidos. O caminho pelos países do continente americano, feito em parte de ônibus, em parte a pé, e em parte em barcos improvisados, pode levar meses. O Darien Gap é o trecho mais brutal desse percurso. E durante um bom tempo, o mundo simplesmente não quis olhar para ele.
O que é o Darien Gap e por que ele existe
O Darien Gap é uma faixa de floresta densa de aproximadamente 575 mil hectares que interrompe fisicamente a ligação terrestre entre a América do Sul e a América Central. É o único ponto em todo o continente americano onde a famosa Rodovia Panamericana, que teoricamente liga o Alasca à Patagônia, simplesmente não existe. Nenhum governo construiu uma estrada por ali. A topografia é hostil, a floresta é protegida (é Patrimônio da Humanidade desde 1981), e, durante décadas, o interesse político em manter a região isolada também serviu como barreira contra o avanço do narcotráfico e das guerrilhas colombianas.

O resultado prático é uma lacuna de selva que, para quem precisa atravessá-la, representa dias ou semanas de caminhada sem infraestrutura alguma.
O uso da rota como corredor migratório não é de hoje, mas era residual até meados da última década. As autoridades panamenhas registraram uma média de cerca de 2.400 travessias por ano entre 2010 e 2014. O primeiro salto expressivo veio em 2015 e 2016, com cerca de 30.000 chegadas anuais. Depois disso, os números explodiram. Em 2023, foram 520.085 pessoas. Em 2024, mesmo com uma queda expressiva, ainda foram 302.203. Para ter dimensão: em alguns momentos de pico, uma média de 3.000 pessoas atravessava a floresta por dia.
Mas quem são essas pessoas que atravessam a selva
A maioria esmagadora vem da Venezuela. Dos mais de 400 mil migrantes registrados cruzando pelo lado colombiano do Darién em 2024, 302.185 eram venezuelanos, seguidos de equatorianos (22.785), colombianos (17.529), haitianos (17.329), chineses (12.214) e indianos (6.927).
A Venezuela vive uma das maiores crises humanitárias do continente. Mais de 7 milhões de pessoas abandonaram o país nas últimas décadas, um número comparável ao da diáspora síria em escala global. Para muitos, o destino inicial era outro país da América do Sul. Mas restrições migratórias, falta de oportunidades e instabilidade foram empurrando parte dessa população cada vez mais ao norte, até o ponto em que o Darien Gap se tornou o único caminho viável.
Um relatório da Human Rights Watch baseado em dois anos e meio de entrevistas com cerca de 300 pessoas aponta que muitos dos migrantes que cruzam o Darién já haviam se estabelecido em outros países da América do Sul por longos períodos antes de tomar a decisão de seguir adiante. Não são, em sua maioria, pessoas que acabaram de sair de casa. São pessoas que tentaram reconstruir a vida em outro lugar e não conseguiram.

Entre os que atravessam a selva há uma proporção alarmante de crianças. Em 2024, mais de 30.000 crianças cruzaram o Darién só nos quatro primeiros meses do ano, aumento de 40% em relação ao mesmo período de 2023. A UNICEF esteve presente na região desde 2018, quando apenas 522 crianças haviam sido registradas nessa travessia.
O que acontece dentro da floresta
A travessia começa, do lado colombiano, nas pequenas cidades de Acandí ou Capurganá, no litoral caribenho do Chocó. De lá, começa a caminhada pela mata em um percurso que pode durar entre cinco e quinze dias, dependendo da condição física do migrante e da rota escolhida. O terreno é montanhoso, os rios são traiçoeiros, e a umidade torna tudo mais difícil: infecções de pele, desidratação e problemas gastrointestinais são os relatos mais comuns de quem chegou ao outro lado.
Mas é bom reforçar que os maiores perigos não vêm da natureza.
Grupos criminosos emboscam migrantes e pessoas que buscam asilo, ameaçam com armas, exigem dinheiro e cometem agressões sexuais. A Médicos Sem Fronteiras atendeu cerca de 1.500 pessoas que relataram violência sexual durante a travessia do Darién entre abril de 2021 e março de 2024.
Do lado colombiano, quem controla a rota é o Clan del Golfo, também conhecido como Autodefensas Gaitanistas de Colombia, o maior grupo narcoparamilitar do país. O cartel cobra aproximadamente 125 dólares por cada pessoa que atravessa o Darién, controla praticamente todos os aspectos da economia nas cidades de trânsito, e decide quem pode atuar como guia na rota. Àqueles que não têm dinheiro para pagar pela travessia, os criminosos obrigam a carregar cocaína ou outros produtos ilícitos através da fronteira.
Do lado panameño, ao sair da floresta, os migrantes chegam às comunidades indígenas de Bajo Chiquito ou Canaán Membrillo, onde são registrados pelas autoridades migratórias do Panamá. Muitas dessas pessoas chegam sem conseguir se manter em pé.
O “engarrafamento” que o mundo não viu
Em 2023, o volume de travessias criou o que jornalistas e organizações humanitárias passaram a chamar de “engarrafamento migratório”: filas de pessoas acampadas em pontos de espera, comunidades indígenas de 400 habitantes recebendo diariamente 2.000 ou 3.000 estranhos, serviços de saúde colapsados, crianças sem atendimento… um perfeito caos.
Em 2024, 67% das pessoas entrevistadas por organizações humanitárias disseram ter precisado de assistência no Panamá e não terem recebido. A necessidade de atendimento médico aumentou 16 pontos percentuais em relação a 2023.
O fluxo caiu abruptamente em 2025. Segundo dados oficiais do Panamá, as travessias irregulares pelo Darién despencaram de 302.203 em 2024 para apenas 3.091 em 2025, uma queda de 99%. O motivo é uma combinação de fatores: o governo panamenho fechou pontos de acesso à floresta, assinou um memorando com os Estados Unidos para realizar voos de deportação, e a política migratória da administração Trump tornou a tentativa de chegar ao norte muito mais arriscada e, para muitos, inútil.

Mas a queda nos números não significa que a crise acabou. Muitos migrantes que já haviam chegado ao México passaram a buscar rotas de retorno, algumas por terra, outras por mar, igualmente perigosas. A selva fechou. O desespero, não.
O Darien Gap não é uma pauta de turismo convencional. Mas é uma pauta de quem entende que viajar é também olhar para o mundo com mais atenção e menos conforto.
Existe uma ironia brutal na geografia dessa história: a mesma região que é Patrimônio da Humanidade pela sua biodiversidade exuberante virou cemitério e campo de violência para centenas de milhares de pessoas que tentam, simplesmente, sobreviver. A Colômbia que recebe turistas encantados em Cartagena e Bogotá tem, no seu extremo norte, uma floresta onde o Estado não chega e o crime organizado cobra pedágio sobre vidas humanas.
Entender o Darien Gap é entender algo fundamental sobre as Américas hoje: as fronteiras que aparecem nos mapas são muito menos reais do que as que existem na prática e as pessoas que mais sofrem com isso são exatamente as que têm menos escolha.
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