Grandes artistas internacionais no auge de suas carreiras raramente pousavam por aqui, e quando vinham, saíam com experiências que não encorajavam o retorno

Antes da catarse coletiva do Queen, antes dos rifs do Foo Fighters, antes da elegância de Sr. Elton John, antes da energia inesgotável do ”Boss”, Bruce Springsteen, antes mesmo dos 100 mil por dia no Parque Olímpico, houveram muitos nãos. Dezenas de recusas de artistas internacionais que não queriam vir tocar num país que ainda carregava a má fama de fazer sumir equipamentos ainda no porto. A história do Rock in Rio começa muito antes da Cidade do Rock existir, e entender essa história é entender por que o festival de 2026 representa algo maior do que uma grade de shows.
Em 1985, o Brasil era um país que passava por uma transformação nacional, saindo da ditadura militar. O conhecimento musical do público era, em larga medida, limitado por aquilo que as rádios autorizavam a tocar. Grandes artistas internacionais no auge de suas carreiras raramente pousavam por aqui, e quando vinham, saíam com experiências que não encorajavam a volta. Nossa fama não era das melhores.
O problema do Brasil no mapa do rock
O jornalista Luiz Felipe Carneiro registrou que, em 1980, os instrumentos do Earth, Wind & Fire sumiram no porto do Rio. O The Police, o Van Halen e o Kiss, que estiveram no país entre 1982 e 1983, também saíram sem guardar boas lembranças. Muitas delas foram marcadas por amadorismo na produção local, calotes financeiros, retenção de equipamentos de som e problemas técnicos. A falta de estrutura do mercado nacional de grandes shows na época gerou enorme desgaste para as bandas estrangeiras
Segundo levantamento do site Aventuras na História, Roberto Medina e sua equipe, Luiz Oscar Niemeyer e Oscar Ornstein, enfrentaram 70 recusas antes de consolidar as 16 atrações estrangeiras da primeira edição. Passaram um mês inteiro entre Nova York, Los Angeles e Londres. Claramente pensaram em desistir. Como não, diante de tantas recusas?
A virada veio por um telefonema estratégico. Medina conhecia Lee Solters, o assessor de imprensa de Frank Sinatra. Foi Solters que abriu as portas. O primeiro artista a aceitar foi Ozzy Osbourne. Depois dele, veio o Queen. E depois do Queen, tudo começou a se desenrolar.
Janeiro de 1985: o Brasil que nunca tinha visto isso
A primeira edição do Rock in Rio aconteceu em janeiro de 1985, com dez dias de festival e um público que chegou a 1,38 milhão de pessoas, segundo os números da organização. Foi o maior evento musical já realizado até então no Brasil. O guitarrista Pepeu Gomes, dos Novos Baianos, que se apresentou no festival junto com Baby Consuelo, disse que algo parecido só tinha acontecido em Woodstock.

A primeira edição reuniu Queen, AC/DC, Rod Stewart, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, além de Rita Lee, Paralamas do Sucesso, Pepeu Gomes e muitos outros. Para boa parte do público, era a primeira vez que se via ao vivo artistas que o rádio tocava, mas o país nunca tinha recebido de verdade. O impacto foi imediato e gigantesco, como era de se esperar.
O festival como vitrine de tendências
Ao longo das décadas seguintes, o Rock in Rio foi construindo uma reputação como um dos primeiros palcos onde artistas internacionais chegavam ao Brasil antes de explodir no mainstream. Apesar do nome, o festival nunca foi exclusivamente de rock. Pop, hip-hop, eletrônico, funk e MPB coexistiram na grade desde as primeiras edições.
Nomes como Prince, Beyoncé, Shakira, Rihanna e Justin Timberlake passaram pelo festival, como registra o especial de curiosidades da Time Out Rio. Em 2022, o festival foi declarado Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro, consolidando seu papel não apenas como evento mas como parte da identidade da cidade.
O Rio para além do Rock in Rio
De rock a K-pop: o arco de 40 anos
Em 2026, o Stray Kids sobe ao Palco Mundo como headliner. É a primeira vez que um grupo de K-pop ocupa o posto principal em qualquer edição do Rock in Rio. Quem olha para a grade de 1985, com AC/DC e Iron Maiden, e para a grade de 2026, com Stray Kids, Demi Lovato e Twenty One Pilots ao lado de Foo Fighters e Elton John, está olhando para a trajetória da música popular mundial nas últimas quatro décadas.
O festival nunca foi sobre um gênero. Foi sempre sobre o momento. E o momento de 2026 diz muito sobre para onde a música está indo. A geração que cresceu ouvindo os headliners de 1985 já tem filhos que cresceram ouvindo BTS, por exemplo. O Rock in Rio, mais uma vez, está no meio do caminho entre esses dois mundos.
O festival que terminou no prejuízo e voltou maior
Poucas pessoas sabem que a primeira edição terminou com a organização quebrada e a Cidade do Rock, o local onde rolou o festival naquele ano, destruída. O sucesso de público foi enorme, mas os custos foram infinitamente maiores. Demorou anos para o festival retornar. Em 1991, veio a segunda edição, no Maracanã, e desta vez com um cenário político diferente e uma nova geração de público.
Ao longo do caminho, o festival quase foi cancelado por causa da violência urbana no Rio de Janeiro nos anos seguintes. Mas ele sobreviveu. Expandiu-se para Lisboa em 2004, para Madri em 2008, para Las Vegas em 2015. Virou livro, documentário, peça de teatro. Originou muitos produtos licenciados. A marca que nasceu de 70 recusas está na 11ª edição no Rio de Janeiro em 2026.
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