Às vésperas da eleição de 4 de outubro, a história do Rock in Rio mostra como a arte defende democracia, igualdade e o direito de falar sobre o país

Em 4 de outubro, mais de 158 milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para escolher presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. A palavra política volta a ocupar as conversas em família, as redes sociais e as ruas, como acontece a cada eleição, e também os palcos, como aconteceu no Rock in Rio 2026.
Mas política não é assunto que aparece a cada dois anos e depois vai embora. Ela está no valor do trabalho, na forma como o racismo é enfrentado, no acesso à cultura, no cuidado com o meio ambiente, na liberdade de dizer o que se pensa. Está na arte, no cinema, no teatro, na música… no cotidiano, e é no cotidiano que precisa ser conversada.
Antes de seguir, é justo deixar claro de onde falamos. O Portal Embarque na Viagem defende a democracia, o direito de escolha livre e a garantia de direitos iguais para todas as pessoas, com equidade, sem que ninguém fique de fora.
Nessa causa, nossa posição é única. Entendemos que todo extremismo é nocivo porque ele tende a tratar quem pensa diferente como inimigo. E entendemos que projetos que restringem direitos de grupos inteiros, como os da extrema-direita, não são compatíveis com a democracia que defendemos. É uma leitura editorial, feita com transparência, e por isso a assumimos aqui.
Arte e política: por que falar de direitos nos festivais
A arte sempre foi um lugar onde a sociedade se olha no espelho. Ela incomoda, pergunta, propõe e lembra o que muita gente prefere deixar para depois. Por isso, a política deve ser conversada nos festivais de música, nas feiras literárias, nas batalhas de rap, nos espetáculos de dança, circo e teatro, no cinema e em qualquer outro espaço onde as pessoas se reúnem para sentir e pensar juntas.
Não se trata de transformar cada palco em palanque. Trata-se de reconhecer que quem faz arte vive no mesmo país que o público, enfrenta as mesmas desigualdades e tem o direito, garantido pela própria democracia, de falar sobre isso.
Rock in Rio 1985: o festival que nasceu junto com a redemocratização
O Rock in Rio estreou entre 11 e 20 de janeiro de 1985, na reta final da ditadura militar. No dia 15, com o festival em andamento, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo Neves para a Presidência da República, encerrando o ciclo de governos militares iniciado em 1964.
Cazuza, na época vocalista do Barão Vermelho, estava no palco naquele contexto, e a apresentação de “Pro Dia Nascer Feliz” virou uma das imagens mais lembradas da edição. O Rock in Rio não surgiu num país politicamente neutro. Surgiu quando a sociedade brasileira recuperava o direito de falar em público sobre si mesma.
Política no Rock in Rio de 2011 a 2017: o país sobe ao palco
Em 2011, quando o festival voltou ao Rio depois de uma década, Dinho Ouro Preto dedicou “Que País É Este?” ao então presidente do Senado, José Sarney, e o público acompanhou o protesto. A canção, escrita nos anos 1970 pelo Aborto Elétrico, seguia servindo para questionar quem exerce o poder.
Em 2015, Supla e João Suplicy apresentaram “É Tudo pelo Poder”, uma crítica a partidos e políticos. Em 2017, o grito de “Fora, Temer” apareceu entre público e artistas, Johnny Hooker e Liniker levaram ao palco a expressão “Amar sem Temer”, e Titãs, Blitz, Frejat e Skank também fizeram referências políticas. As pautas vinham misturadas com liberdade sexual, direitos e meio ambiente. O que une estes artistas é o exercício da liberdade de expressão, um direito que só existe onde há democracia.
Rock in Rio 2019 e 2022: Marielle, Amazônia e a frase “política não se faz em festival”
A edição de 2019 foi uma das mais marcadas por manifestações. Elza Soares falou de machismo, violência contra a mulher, direitos e participação política. O Francisco, el Hombre levou ao palco imagens de Marielle Franco, Ágatha Félix, Dilma Rousseff, Luiza Erundina, Djamila Ribeiro, Malala, Greta Thunberg e do cacique Raoni, além de mensagens sobre Amazônia e educação.
Em 2022, apesar da fala delicada de “política não se faz em festival”, defendendo o evento como espaço de música e celebração, no palco, os artistas fizeram suas próprias escolhas. Emicida falou sobre as eleições de 2 de outubro e respondeu à ideia de que o tema deveria ficar de fora, e Racionais MC’s, Black Pantera e Green Day também levaram suas manifestações e posicionamentos. A organização pode não assumir posição institucional, mas quem sobe ao palco e quem está na plateia continua tendo a sua.
Rock in Rio 2026: menos manifestações, mas elas estiveram lá
Uma análise publicada num artigo, pela Folha depois do encerramento, observou que a edição de 2026 teve menos manifestações políticas do que edições anteriores, como as de 2019 e 2022. A política não dominou a Cidade do Rock, mas apareceu em discursos, símbolos e performances.
No primeiro dia, Capital Inicial voltou a usar “Que País É Este?” para falar do Brasil. Dinho dedicou a música a Daniel Vorcaro e ao Supremo Tribunal Federal, falou em “distopia brasileira” e citou figuras de diferentes campos políticos. Quinze anos depois de Sarney, a mesma canção serviu de novo para cobrar quem tem poder.
Em 5 de setembro, no Palco Sunset, o Black Pantera dividiu o show com a Nervosa. Charles Gama falou contra o racismo, defendeu representatividade e pediu o fim da escala 6×1. No mesmo dia, Léo Ramos, do Supercombo, fez um discurso depois de “Amianto”, criticando a extrema-direita e defendendo mudanças no Congresso e no Supremo. Durante a fala, a transmissão do Canal Bis saiu do ar e voltou menos de um minuto depois, com o discurso já encerrado. As redes falaram em censura.
O BaianaSystem usou o telão para trocar “ordem e progresso”, na bandeira brasileira, por “sem anistia”, num show que também tocou em soberania e em questões ambientais e geopolíticas. Em 12 de setembro, ao fim da apresentação de Daniela Mercury com Gilsons e Olodum, uma pessoa fantasiada de cavalo preto, o “Dark Horse”, distribuiu cédulas cenográficas com mensagens em defesa da democracia. A referência foi lida como alusão ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente condenado, Jair Bolsonaro. Daniela disse depois que a intervenção defendia a democracia e a soberania nacional. A Folha registrou o episódio e explicou a referência, que envolve alegações e investigações ainda em curso.
Houve ainda gestos mais discretos, como o do rapper Delacruz, que apareceu no Palco Supernova com uma camiseta com o rosto do Presidente Lula.
Quarenta e um anos depois de Cazuza, os palcos continuam sendo um dos lugares onde o Brasil conversa consigo mesmo. Nem todo artista diz o que pensamos, e está tudo bem: a democracia existe justamente para que muitas vozes caibam no mesmo espaço, sem que nenhuma precise calar as outras.
Para quem está do lado de cá, a lição vale fora do festival. Informar-se, conversar com quem pensa diferente, defender direitos iguais e comparecer à urna fazem parte da mesma consciência que leva um artista a pegar o microfone. O voto é livre, e é nossa a responsabilidade de exercê-lo pensando no país inteiro.
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