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Rock in Rio 2026: o festival mudou ou fomos nós que mudamos?

Rock in Rio 2026 público e experiência
Rock in Rio 2026 público e experiência / Foto: Divulgação

Se você é usuário de redes sociais, provavelmente já se deparou com aquele fluxo gigante de vídeos que passam pela nossa linha do tempo e somem em segundos. Mas, de vez em quando, alguns permanecem provocando incômodos sutis. Recentemente, eu me deparei com uma reflexão em vídeo sobre a evolução do público do Rock in Rio e como a experiência na Cidade do Rock se reconfigurou ao longo das décadas. Embora nem todas as conclusões me parecessem exatas, a provocação central ficou martelando: afinal, quem é a multidão que atravessa os portões do festival em 2026? E o que, de fato, a move até lá?

Acompanho o Rock in Rio há tempo suficiente para nutrir uma ligação afetiva com o evento. Justamente por isso, tento fugir da armadilha fácil da nostalgia. Dizer que “antigamente é que era bom” apaga uma variável decisiva dessa equação: a sociedade que ocupava o gramado de Jacarepaguá em 1985 não existe mais. E eu estive lá. Aliás, eu estive em todas as edições.

O Brasil de 1985 vivia a transição política, a indústria fonográfica ditava os hábitos via rádio e TV aberta, e ver ícones internacionais ao vivo em solo nacional era um evento quase utópico. Naquela primeira edição, 1,38 milhão de pessoas se aglomeraram ao longo de dez dias para assistir a 31 atrações brasileiras e internacionais. O ápice simbólico daquele momento foi justamente quando a iluminação do palco se voltou para a plateia e transformou o público em coautor do espetáculo.

Quarenta e um anos depois, o desejo de pertencer ao espetáculo continua intocado, mas a escala do evento foi hipertrofiada.

Apontar a diversificação de gêneros como causa da “mudança de perfil” do festival é ignorar a própria história do evento. O Rock in Rio nunca foi exclusivamente sobre rock; a mistura de ritmos sempre esteve em seu DNA. O que se transformou de maneira drástica foi a dimensão da experiência e o ecossistema que gravita ao redor da música.

Hoje, ir ao Rock in Rio envolve uma complexa engenharia pessoal de logística, consumo e presença digital. A música permanece como o núcleo do evento, mas é cercada por mais de 90 marcas parceiras, cerca de 100 ativações interativas, 8 mil horas de experiências de marca e a distribuição de mais de um milhão de brindes ao longo de sete dias. O festival deixou de ser apenas uma maratona de shows para se tornar um parque temático da cultura pop e do marketing de experiência.

Essa mudança se reflete no comportamento do frequentador. Uma pesquisa divulgada em agosto de 2026 pela ClickBus (via CNN Brasil) ajuda a desenhar esse novo perfil: 73,6% dos entrevistados apontam o pop internacional como gênero favorito, seguido pelo rock (52,9%) e pela MPB (49,4%). Mais revelador, porém, é o peso da relação com os artistas e com a infraestrutura: 62,1% afirmam manter uma ligação de longa data com seu artista principal, enquanto 18,4% indicam que a motivação primária para ir ao evento reside justamente na atmosfera e na experiência global oferecida pela Cidade do Rock.

Na prática, a frase emblemática “estou indo ao Rock in Rio” deu lugar a “estou indo no dia do artista X”. A compra do ingresso passa a ser o ponto de partida de uma jornada individualizada.

Para quem vem de fora do estado do Rio de Janeiro, o evento é o centro de uma grande operação turística. A mesma pesquisa mostra que 68% dos passageiros de ônibus fazem trajetos superiores a três horas e 78% optam por categorias de assento superiores à convencional (com 57% escolhendo o semi-leito). O festival começa meses antes, na reserva do hotel, na passagem, no planejamento financeiro e no roteiro com os amigos.

Essa sofisticação logística traz à tona um debate inevitável sobre acessibilidade e segmentação. Na edição de 2026, a estreia de áreas como a Comfort Zone, espaço premium próximo ao Palco Mundo com serviços exclusivos, ilustra a busca por conforto e conveniência no mercado de grandes eventos. Com ingressos integrais que chegam a R$ 1.950, em contraste com a entrada inteira de gramado a R$ 870, o festival passa a abrigar microuniversos com níveis de experiência bastante distintos.

Reduzir essa dinâmica a um simples “ficou elitizado” seria uma leitura rasa também. Vivemos em um momento de consumo fragmentado, onde conveniência e exclusividade são comercializadas como produtos culturais. O desafio atual do Rock in Rio é garantir que a experiência do gramado, a energia coletiva que construiu sua fama mundial, continue coexistindo em harmonia com as novas demandas de conforto.

Apesar de todas as transformações de formato e mercado, a força da marca permanece impressionante. Dados da NielsenIQ colocam o Rock in Rio entre as marcas que mais emocionam e despertam afeto no consumidor brasileiro. Esse ativo não é fruto apenas dos megapalcos ou da tecnologia de iluminação, mas da memória afetiva acumulada ao longo de quatro décadas.

Aqui a gente está falando dos pais que levaram o filho ao mesmo lugar onde esteve nos anos 1980; do grupo de amigos que se reencontra a cada dois anos; da camiseta desbotada guardada como relicário, como troféu.

Dizer que o público mudou não significa decretar uma perda de qualidade ou de entusiasmo. Significa apenas reconhecer que a plateia mudou no mesmo ritmo da sociedade. Consumimos arte por streaming, planejamos viagens por plataformas digitais e registramos a vida em tempo real. O Rock in Rio de 1985 respondia ao seu tempo; o de 2026 responde ao nosso.

A verdade é que o festival não era melhor no passado, só era diferente. Mas perceber como, após quarenta anos, ele continua sendo um dos raros acontecimentos capazes de mobilizar multidões em prol de um mesmo ritual coletivo, explica muito. As razões para atravessar as catracas podem ter se multiplicado, mas a busca por um momento inesquecível compartilha exatamente da mesma essência.

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