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Movimento “Pela Vida de Nossas Mães” ganha voz nos noticiários

Pandemia e necessidade do isolamento social trouxeram à tona o privilégio do trabalho remoto

“Pela Vida de Nossas Mães”

O isolamento social é uma das principais recomendações no combate à COVID-19. Isso porque a doença infecciosa causada pelo novo coronavírus é de fácil contaminação direta, ou seja, de pessoa para pessoa. Nesse sentido, empresas e funcionários se viram na tarefa de reestruturar suas formas de trabalhar.

Sendo, ao mesmo tempo, uma tendência do mundo moderno e uma necessidade da situação atual, o trabalho remoto tornou-se uma realidade para muitos. Agora, vários escritórios estão localizados nos apartamentos de patrões e funcionários, pois, a digitalização da força de trabalho é algo mais presente do que nunca.

Se, por um lado, isso pode parecer vantajoso, por outro, também evidencia os privilégios que algumas classes trabalhadoras têm quando comparadas com outras. Existem diversos serviços oferecidos por colaboradores remunerados que não se encaixam nos moldes do trabalho a distância.

A classe das trabalhadoras domésticas é uma dessas categorias. Antes mesmo da pandemia, já existia uma discussão em torno dos direitos trabalhistas das empregadas do lar. 

Não é raro que alguma situação de abuso trabalhista ganhe os noticiários e é comum que essa categoria de funcionárias tenha que trabalhar doente em diversas situações. A crise da COVID-19 traz à tona uma situação que já era problemática, sendo agravada pela pandemia.

Os porta-vozes da situação

Um manifesto divulgado na internet, seguido de um abaixo-assinado, reivindica o direito trabalhista das empregadas domésticas de poderem se isolar. O movimento ganhou o nome de “Pela Vida de Nossas Mães” e foi organizado por filhos e filhas das trabalhadoras em diversas regiões do país.

Vale lembrar que a pandemia acontece exatamente um ano depois que dados de 2019 afirmaram que aquele ano registrou recorde no número de empregadas domésticas em atividade. 

A Pnad Contínua, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou que mais de 6 milhões de brasileiros atuavam na profissão em 2019, um marco nunca experienciado.

A quantidade de pessoas trabalhando na categoria apenas evidencia o quão urgentes são o assunto e a sua necessidade de abordagem. Como grande parte desses profissionais não têm acesso às redes sociais ou enfrentam dificuldade de utilizar dispositivos eletrônicos, os filhos deles tornaram-se porta-vozes da situação nas mídias digitais.

O manifesto “Pela Vida de Nossas Mães”, organizado por filhos, filhas, netos e netas de empregadas domésticas traz, ainda, relatos cruéis de situações nas quais suas responsáveis legais foram submetidas. 

Em um deles, uma jovem relata que sua avó faleceu por conta da doença que contribui de sua patroa que acabava de voltar da Itália. Não sabendo da morte, a contratante enviou uma mensagem para a ex-funcionária, dizendo que havia conseguido outra pessoa para substituí-la.

A arte imita a vida

A situação das empregadas domésticas, infelizmente, é um retrato de um país colonizado por meio de um modelo escravocrata e servil. Por essa razão, esses profissionais são, historicamente, desvalorizados. Mais uma vez, vale lembrar que essa discussão antecede a pandemia.

O filme Domésticas, de 2001, dirigido por Nando Olival e Fernando Meirelles, coloca algumas dessas questões em destaque, com certo humor. No longa-metragem, 5 empregadas compartilham suas vidas e dificuldades dentro e fora do ambiente de trabalho. 

A ficção se tornou, desde o lançamento, uma referência para o Cinema brasileiro, em que uma classe, geralmente, coadjuvante em produções audiovisuais ganha destaque como protagonista. Essa humanização por meio da arte também é um dos marcos das discussões contemporâneas.

De todo modo, a pandemia deixa claro o quão sério e urgente esse assunto é. As vozes dos filhos e dos netos, criadores do manifesto “Pela Vida de Nossas Mães”, é apenas um sopro pelo grito de igualdade que essa classe clama.

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