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A igreja que o Brasil construiu de joelhos — e de pé

Construída por escravizados no século XVIII, a Igreja dos Homens Pretos no Centro do Rio foi catedral, quartel-general abolicionista e resistência viva. Uma história que o Brasil ainda está aprendendo a contar

Igreja dos Homens Pretos Rio de Janeiro

Existe uma esquina no Centro do Rio de Janeiro que a maioria das pessoas atravessa sem olhar para os lados. Na Rua Uruguaiana, 77, entre o barulho e a pressa do Centro, uma igreja de quase trezentos anos insiste em existir e em ser vista. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos não é apenas um templo religioso. É uma declaração de existência.

Foi construída por escravizados e negros livres num tempo em que construir qualquer coisa era, para eles, um ato de resistência. Foi catedral do Rio de Janeiro por mais de setenta anos. Foi quartel-general do movimento abolicionista. Recebeu a família real portuguesa. Sobreviveu a um incêndio devastador, a décadas de abandono e a todas as forças que, ao longo do tempo, tentaram apagar a memória de quem ela representa.

E ainda está lá. De pé. Com quase três séculos de história depositados nas paredes e uma história que deveria ser ensinada em todo colégio do Brasil.

A história começa muito antes da primeira pedra ser assentada no Rio de Janeiro. A primeira irmandade negra católica no Brasil foi fundada em Olinda, em Pernambuco, em meados do século XVI. Quando os africanos foram trazidos ao Brasil sob a condição de escravizados, muitos eram originários do Reino do Congo e trouxeram consigo sua devoção mariana, que no Brasil colonial se misturou com tradições africanas para criar algo inteiramente novo.

No Rio de Janeiro, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos foi fundada em 1640 por escravos e negros livres para promover a devoção a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito, dois santos católicos de grande importância para a comunidade negra. Dois santos negros, Nossa Senhora do Rosário, venerada desde o Congo, e São Benedito, nascido na Sicília filho de escravizados africanos. A escolha não era aleatória: era um ato de identificação, uma forma de dizer nós também existimos dentro desta fé.

É preciso entender o que eram as irmandades para compreender a magnitude dessa fundação. As irmandades católicas negras eram os únicos canais possíveis de organização dos escravos dentro do sistema colonial. As irmandades ofereciam assistência aos membros em dificuldades, incluindo ajuda financeira, cuidados médicos e suporte em caso de morte. Num sistema que negava aos escravizados qualquer forma de existência coletiva, a irmandade era a brecha. Era o único espaço onde um homem escravizado podia ser, também, irmão.

Durante décadas, a Irmandade funcionou nas dependências de outras igrejas, sempre como hóspede, sempre sujeita aos humores do Cabido e dos poderes eclesiásticos. Até 1684, a Irmandade ocupava as dependências da Igreja de São Sebastião, catedral da cidade que existia no Morro do Castelo, mas após atritos com o cônego, os irmãos decidiram retirar de lá suas imagens e construir sua própria Igreja.

A decisão era audaciosa. Escravizados e negros livres, sem recursos, sem poder político, numa colônia que não os reconhecia como cidadãos e querendo construir uma igreja própria. Isso só foi possível nos primeiros anos do século XVIII, quando a devota Francisca Pontes doou para a Irmandade um terreno localizado na Rua da Vala, atual Rua Uruguaiana. Com o apoio inesperado do governador Luiz Vahia Monteiro, o “Onça”, como era conhecido, as obras avançaram. Em 1725, a Capela-Mor estava concluída. Em 1737, a Igreja estava praticamente pronta.

E então aconteceu algo que a Irmandade não pediu e não queria: no mesmo ano de 1737, a Igreja foi elevada à catedral do Rio de Janeiro, reunindo no mesmo templo membros da antiga Sé e da Irmandade. A Irmandade acatou, mas não sem tensão. Eram eles os donos da casa, e de repente tinham que dividir esse espaço conquistado com tanta dificuldade com as mesmas estruturas de poder eclesiástico que sempre os trataram como hóspedes de segunda categoria.

Os Cônegos decidiram receber na porta do templo os ilustres visitantes reais em detrimento dos membros da Irmandade. Após muita discussão, os Irmãos simularam conformar-se com a vontade dos “hóspedes” que se retiraram da Igreja. Entretanto, ficaram nas redondezas e, ao se aproximar o cortejo, postaram-se na porta da Igreja. O séquito do soberano e fidalgos teve que desfilar entre as alas dos negros irmãos.

É uma imagem extraordinária: escravizados e negros livres posicionados na porta de sua própria igreja, obrigando a nobreza portuguesa a passar entre eles. Em 1808. No Brasil colonial. Um gesto silencioso e absolutamente radical.

Igreja dos Homens Pretos Rio de Janeiro

Como catedral, foi a primeira a receber a família real portuguesa quando da sua chegada ao Rio. Dom João VI e sua comitiva entraram nessa igreja de negros e escravizados para agradecer o êxito da viagem. A ironia histórica é perturbadora: o monarca mais poderoso do mundo português pisou primeiro no espaço que seus súditos escravizados haviam construído com as próprias mãos.

Durante um período de 13 anos, entre 1812 e 1825, funcionou nas dependências da Igreja a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Nas dependências do consistório da Irmandade foram realizadas diversas sessões do Senado da Câmara às vésperas da Independência. Ali também foi redigida a representação popular que culminou no “Dia do Fico”.

Pense nisso por um momento: o documento que pediu a Dom Pedro I que ficasse no Brasil, o ato que desencadeou a Independência, foi redigido dentro de uma igreja construída por escravizados. O Brasil que nasceu livre nasceu dentro de uma casa erguida por quem não era livre.

Igreja dos Homens Pretos Rio de Janeiro
Igreja dos Homens Pretos Rio de Janeiro

Décadas depois, a Igreja voltaria ao centro da história do Brasil, desta vez como epicentro da luta que deveria ter acontecido antes mesmo da Independência.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito guarda parte da história da abolição no Brasil e de seus protagonistas. Lá reuniam-se José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e André Rebouças para articular ações pelo fim da escravidão no país. Na garagem do prédio, funcionavam as gráficas de periódicos como O Abolicionista, de José do Patrocínio.

Os três formavam um triângulo improvável e poderoso. Patrocínio era filho de um padre com uma quitandeira escravizada, jornalista furioso, orador de multidões, fundador da Confederação Abolicionista. Nabuco era filho da elite pernambucana, formado em Direito, diplomata, e o mais eloquente parlamentar da causa abolicionista. Rebouças era engenheiro, neto de uma escrava liberta, um dos homens mais brilhantes do seu tempo, e monarquista convicto que acompanharia Dom Pedro II ao exílio após a proclamação da República.

As irmandades católicas negras eram os únicos canais possíveis de organização dos escravos dentro do sistema colonial. O sentimento cristão e a solene devoção à Virgem do Rosário gestaram o movimento abolicionista brasileiro. A fé não era apenas conforto espiritual, e sim uma estrutura organizacional. Era o que permitia que pessoas sem direitos políticos se reunissem, planejassem, agissem.

O Museu do Negro, tombado em 1938, reúne instrumentos da escravidão, móveis, documentos, estandartes, bandeiras abolicionistas, livros, fotografias de homens que se celebrizaram na campanha da abolição como Luiz Gama, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, Castro Alves, André Rebouças, Cruz e Sousa e outros.

Em 26 de março de 1967, um incêndio devastou a Igreja. As chamas destruíram o interior barroco com sua talha dourada, os adornos, os elementos decorativos que davam ao espaço seu caráter original e consumiram boa parte do acervo do Museu do Negro, que funcionava no segundo andar e guardava documentos preciosos da história da Irmandade.

A reconstrução ficou a cargo dos arquitetos Lúcio Costa e Sérgio Porto, que optaram por um interior despojado, sem recompor os ornamentos perdidos. O resultado é um espaço que causa estranhamento em quem conhece as igrejas barrocas brasileiras, e justamente por isso é tão eloquente. Sem a talha dourada, fica evidente o quanto ela era responsável por todo o sentido visual daquele tipo de arquitetura. A ausência ensina o que a presença nunca precisou explicar.

Mas há algo de poderoso nesse interior nu. Tudo foi tirado e a Igreja ainda está de pé.

Da tragédia nasceu uma decisão: em 1969, a Irmandade fundou oficialmente um novo Museu do Negro, reconstruindo o acervo a partir de doações. Hoje o museu reúne quadros, objetos de culto, instrumentos da escravidão e documentos históricos, entre eles, um manuscrito de 1572 atribuído a Luís de Camões, doado por proprietários de antigas fazendas.

O Museu do Negro, situado no segundo andar da Igreja, abriga um respeitável acervo que inclui registros da história dos negros no Brasil, objetos de culto religioso e de devoção, sendo, por exemplo, o único museu de veneração de Anastácia, escrava brasileira reverenciada como santa na religião afro-brasileira.

Igreja dos Homens Pretos Rio de Janeiro
Igreja dos Homens Pretos Rio de Janeiro – Arte: Embarque na Viagem

O acervo inclui a escultura em madeira da escrava Anastácia, uma negra que veio da África, de olhos azuis, que não quis se entregar ao dono. Em represália, além de chicoteá-la, ele colocou uma máscara de flandres sobre seu rosto, para que ela não pudesse falar. Com o tempo, adoeceu e acabou morrendo. Não há documentos provando sua existência, sendo uma história oral contada nas senzalas que chegou até os dias atuais. Mas a ausência de documentos sobre Anastácia não diminui sua força simbólica, ela representa todas as que existiram e não tiveram nem o privilégio do mito.

Na entrada da Igreja, ao lado direito de quem entra, uma lápide de bronze marca o túmulo de Mestre Valentim, o escultor e urbanista Valentim da Fonseca e Silva, membro da Irmandade, sepultado ali em 1813. O homem que esculpiu os chafarizes mais belos do Rio colonial, que desenhou o Passeio Público, descansa dentro da casa de sua irmandade.

A Igreja realiza até hoje missas especiais. As missas de Cura acontecem todas as quintas-feiras, das 12h às 15h, e costumam lotar o templo com muitos fiéis. Em outubro é comemorado o dia de São Benedito com procissão e uma tradicional feijoada.

Toda vez que passo pela Rua Uruguaiana e vejo aquela fachada, com sua porta larga, a estrutura que insiste em existir apesar de tudo, eu penso em quantas histórias estão depositadas ali que a maioria das pessoas nunca vai ouvir.

A história oficial do Brasil tem uma tendência perturbadora de contar a abolição como um ato de generosidade da princesa Isabel, um presente dado de cima para baixo, como se os escravizados tivessem esperado pacientemente enquanto os brancos de boa vontade resolviam o problema. A Igreja do Rosário dos Homens Pretos conta outra história: a de que os próprios escravizados e seus descendentes organizaram, planejaram, pressionaram e lutaram pelo fim da escravidão durante décadas, usando como base de operações uma igreja que eles mesmos haviam construído num terreno que uma mulher devota havia doado, numa rua que hoje se chama Uruguaiana.

Não foi um presente. Foi uma conquista. E o endereço dessa conquista é público, está no Centro do Rio, e recebe visitantes.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos fica na Rua Uruguaiana, 77, Centro do Rio de Janeiro, a menos de cem metros do Largo de São Francisco de Paula e do IFCS/UFRJ. O Museu do Negro funciona no segundo andar.

A Igreja fica a poucos passos do ponto anterior desta série — o IFCS/UFRJ — e a caminhada entre os dois lugares, pelo Largo de São Francisco, já é por si só um percurso de história viva.


Naira Amorelli é editora do Portal Embarque na Viagem, estudante de Ciências Sociais no IFCS/UFRJ e esta matéria faz parte da série Centro Histórico do Rio — Roteiro pelo Brasil que se fez aqui, uma varredura histórica e cultural pelo quadrilátero entre a Praça Tiradentes e a Rua Uruguaiana, um dos quilômetros quadrados mais carregados de memória do Brasil.

Leia também: O Centro do Rio que poucos conhecem e IFCS: três séculos de história no Centro do Rio.

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