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IFCS: três séculos de história no Centro do Rio

De catedral inacabada a reduto intelectual: o IFCS/UFRJ guarda três séculos de história no coração do Centro do Rio

IFCS UFRJ história Centro do Rio
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais UFRJ – Foto: NIED

Eu tinha uns quinze anos quando passei pela primeira vez diante daquele prédio. Não sei dizer exatamente o que senti, talvez nem tivesse palavras para isso na época, mas sei que parei. Fiquei ali parada, olhando para aquela fachada enorme, para as janelas altas, para os estudantes que entravam e saíam com livros debaixo do braço com uma naturalidade que me parecia, naquele momento, uma coisa quase impossível de alcançar. Era o Largo de São Francisco de Paula, no centro histórico do Rio de Janeiro, no início dos anos 1990. E o prédio era o que hoje eu sei chamar pelo nome: o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O IFCS da UFRJ é, sem exagero, um dos endereços mais carregados de história do Centro do Rio. 

Passei os anos seguintes circulando por aquela região. Estudei o ensino médio perto dali. O Largo virou parte da minha paisagem cotidiana, e o prédio, aquele prédio enorme, antigo, cheio de uma mística que eu não sabia nomear, foi se tornando uma espécie de promessa silenciosa que eu fazia para mim mesma. Um dia eu entro.

Mas “um dia” foi chegando e passando. A vida foi acontecendo do jeito que ela tem, os vestibulares foram surgindo e os medos foram ganhando. Não me achava capaz. Uma universidade pública, tão concorrida, parecia um lugar para outras pessoas, pessoas mais preparadas, mais inteligentes, que tinham crescido com mais recursos do que eu. E assim foram se passando os anos. Vinte e oito deles.

Não sei como descrever o que senti no dia em que entrei no IFCS pela primeira vez não mais como visitante, não mais como alguém que passa na calçada, mas como estudante. Matriculada. Com direito a estar ali.

Havia uma sensação estranha de que o tempo tinha dobrado sobre si mesmo, a adolescente que parava na calçada e a mulher que agora atravessava aquelas portas eram a mesma pessoa, e ao mesmo tempo duas completamente diferentes. Lembro que olhei para o teto do corredor e pensei: este teto tem mais história do que qualquer livro que eu já li.

E tem. Muito mais.

O que hoje abriga o IFCS começou sua vida como um projeto que nunca se completou: a nova catedral do Rio de Janeiro. Em 1742, o então governador Gomes Freire de Andrade determinou a expansão da cidade, e o engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim riscou no papel uma grande praça onde se ergueria a nova Sé episcopal. Pedra fundamental lançada, paredes começadas e então, nada. Os recursos secaram, a vontade política foi embora, e por décadas o terreno ficou parado no coração da cidade: paredes semiconstruídas, um projeto abandonado, uma promessa que a colônia não soube cumprir.

A história do Brasil está cheia dessas arquiteturas do que poderia ter sido.

A virada veio em 1808, com a chegada da família real portuguesa ao Rio. Dom João VI olhou para aquele esqueleto de catedral no Largo de São Francisco e viu outra coisa: uma oportunidade. Mandou terminar as obras, mas dessa vez não para servir aos propósitos de Deus, mas para os do Estado. Em 1812, nos salões que deveriam ter sido naves e capelas, começou a funcionar a Academia Real Militar, o primeiro curso de ensino superior construído especificamente para esse fim no Brasil.

Era a engenharia nascendo aqui dentro. E era, também, uma certa ironia fundadora: o lugar destinado à fé foi entregue à razão.

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IFCS história Centro do Rio

Quem passa hoje pelo Largo e olha para o prédio não imagina quantas vidas ele viveu. Depois da Academia Real Militar, veio a Escola Central de Estudos Científicos e de Engenharia, em 1858, quando os militares se mudaram para a Praia Vermelha. Em 1874, já vinculada ao Ministério do Império, a instituição se transformou na Escola Politécnica, a mais importante escola de engenharia do país por quase um século, referência para todas as outras, formadora das gerações que construíram pontes, estradas, a infraestrutura de um Brasil que ainda engatinhava.

Nessas mesmas salas onde hoje eu tenho aulas de Sociologia, Antropologia e debato teoria política, gerações de engenheiros aprenderam a calcular estruturas. O mesmo piso, as mesmas janelas altas, o mesmo peso do teto.

Entre os que cruzaram as salas dessa instituição está Darcy Ribeiro, e mencionar o nome dele aqui não é apenas uma nota de rodapé histórica, é quase uma homenagem pessoal. Diplomado em Ciências Sociais com especialização em Antropologia em 1946, Darcy dedicou os primeiros anos de vida profissional ao estudo dos povos indígenas de várias tribos do país, fundou o Museu do Índio, colaborou na criação do Parque Indígena do Xingu e ministrou aulas de Etnografia Brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia, a mesma instituição que deu origem ao IFCS. Considerado uma referência em políticas públicas educacionais no Brasil, seu pensamento atravessou a antropologia, a educação, a literatura e a política, e se hoje a universidade é um espaço que comporta pensamentos complexos, multifacetados e velozes, essa é uma herança sua. Seu pensamento dirigia-se contra o funcionalismo, o marxismo dogmático e as teorias da modernização, afirmando um olhar próprio sobre a civilização brasileira, em uma tentativa de entender o Brasil a partir do Brasil, sem pedir licença para os centros acadêmicos do Norte Global. Para Darcy, a história das ciências sociais no Brasil era indissociável da construção de uma nação autônoma. Sentar nessas cadeiras sabendo que ele também sentou aqui é uma responsabilidade bonita de carregar. 

Em 1920, a Escola foi incorporada à Universidade do Rio de Janeiro. Em 1937, passou a se chamar Escola Nacional de Engenharia. E em 1964, depois de 154 anos de presença ininterrupta no Largo de São Francisco, a engenharia finalmente se mudou para a Ilha do Fundão, para a cidade universitária que Lúcio Costa e Oscar Niemeyer haviam projetado.

O prédio ficou. E em 1969, num momento em que o país sufocava sob a ditadura militar, ele ganhou seu novo inquilino: o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, nascido da junção dos antigos cursos de Ciências Sociais, História e Filosofia da Faculdade Nacional de Filosofia.

Não foi por acaso que a filosofia, a história e as ciências sociais foram morar justamente ali, naquele prédio no centro histórico do Rio, naquele largo que por séculos foi palco de comícios, protestos e revoltas. É como se o lugar tivesse uma vocação que a história foi confirmando, camada por camada.

Para entender o IFCS, é preciso entender o Largo de São Francisco de Paula, esse espaço que o prédio habita e que habita o prédio de volta.

Traçado em 1742 pelo mesmo engenheiro que planejou a catedral inacabada, o Largo foi por décadas o centro nervoso da vida pública carioca. Ali foi inaugurada, em 1872, a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, o estadista que defendeu o fim da escravidão já em 1823, na Assembleia Constituinte, décadas antes de qualquer lei sequer tocar no assunto. Dom Pedro II, pupilo espiritual de Bonifácio, presidiu pessoalmente a cerimônia. A escolha do lugar não era aleatória: o Largo era a praça dos comícios, o endereço da política popular no Rio. Olha aí a conexão…

E essa vocação se manteve. No período da Regência, nos anos 1830, o Largo foi palco dos primeiros grandes distúrbios políticos do Império. Nas décadas de 1880, era o território dos comícios abolicionistas, dessa vez com outro José, o José do Patrocínio, além de Joaquim Nabuco e André Rebouças, articulando ações pelo fim da escravidão a poucos metros dali, na Igreja do Rosário dos Homens Pretos, na Rua Uruguaiana. Em 1904, na Revolta da Vacina, estudantes e populares se reuniram ali para resistir à vacinação obrigatória imposta por Oswaldo Cruz, numa revolta que era muito mais sobre a violência do Estado contra os pobres do que sobre vacinas, não vamos misturar as coisas, ok! E ao longo do século XX, os protestos continuaram: trabalhadores, servidores, movimentos sociais, sempre voltando ao mesmo Largo como quem volta a um lugar de memória.

O IFCS chegou só em 1969 carregando tudo isso. E desde então não parou de adicionar suas próprias camadas: as ocupações estudantis contra a ditadura, os debates que formaram gerações de intelectuais brasileiros, os professores que foram cassados e os que resistiram, as ideias que circularam por aqueles corredores quando circular com ideias era um ato de coragem.

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Manifestantes, entre estudantes, advogados e professores, se reúnem em frente ao IFCS história Centro do Rio- Foto: Fabio Rossi

Hoje, cada vez que cruzo a Rua Uruguaiana em direção ao Largo, sinto uma coisa que só consigo descrever como gratidão, mas não a gratidão passiva de quem recebeu um presente. É uma gratidão ativa, que me obriga a alguma coisa. A me dedicar de verdade. A estar presente. A não desperdiçar nem um segundo daquelas aulas.

Às vezes, no meio de uma aula de teoria antropológica ou de metodologia de pesquisa, eu olho pela janela para o Largo lá embaixo e penso no adolescente que ficava do lado de fora olhando para cima. E penso em tudo que esse prédio já foi,  — catedral, academia militar, escola politécnica, reduto de resistência — e em tudo que ele ainda é.

Existe algo de muito certo em um prédio que começou como um projeto de fé e terminou, por enquanto, como um lugar onde se pensa o mundo. Não são coisas tão diferentes assim.

O IFCS/UFRJ fica no Largo de São Francisco de Paula, no Centro do Rio de Janeiro, a poucos passos do Real Gabinete Português de Leitura, da Igreja de São Francisco de Paula, da Igreja do Rosário dos Homens Pretos e do Teatro João Caetano. É um dos pontos de uma região extraordinariamente densa de história, que estamos explorando em detalhes nesta série de matérias.

O prédio não costuma abrir para visitação pública regular, mas o Largo em si é acessível a qualquer hora, e já vale a visita só para ficar parado na calçada, olhando para cima, imaginando tudo que aconteceu ali dentro.

Às vezes basta isso: parar. Olhar. E desejar.


Naira Amorelli é editora do Portal Embarque na Viagem, estudante de Ciências Sociais no IFCS/UFRJ e esta matéria faz parte da série Centro Histórico do Rio — Roteiro pelo Brasil que se fez aqui, uma varredura histórica e cultural pelo quadrilátero entre a Praça Tiradentes e a Rua Uruguaiana, um dos quilômetros quadrados mais carregados de memória do Brasil.

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