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Quem são os ciganos e por que o mundo ainda tem medo deles

O povo cigano tem milênios de história, uma língua própria e uma cultura que influenciou o mundo, e ainda assim é um dos povos mais perseguidos e incompreendidos do planeta. Uma viagem a Portugal me fez querer entender por quê

povo cigano

Cresci ouvindo que tinha sangue cigano na família. Nada documentado, só histórias contadas em voz baixa por parentes mais velhos, daquelas que circulam sem certidão e sem data. Nunca soube o parentesco exato, nem de onde vieram. Ficou essa sombra presente na memória, e com ela uma curiosidade sobre o povo cigano que me acompanhou por muito tempo.

Quando fui a Portugal em 2018, essa curiosidade virou indignação.

Começou pelo Alentejo, mas não ficou só por lá. Seguiu por Lisboa e por tantas outras cidades médias e menores que passei. Foi assunto em conversa casual numa pousada, foi o comentário de passagem de quem me servia de guia, foi alerta na padaria, aviso direto na rua, em frente a uma igreja… Em todo o país, as pessoas falavam dos ciganos com uma raiva que não precisava de provocação para aparecer, ela estava ali como parte essencial do cotidiano. Me lembro que em 2018, uma pessoa me disse que o governo português oferecia benefícios sociais a imigrantes e os ciganos estavam entre os grupos contemplados. Logo, para uma parcela da população, isso tinha virado argumento moral: os ciganos estavam “roubando” recursos do país, sendo sustentados pelo Estado sem contribuir com nada. E então entendi que o estereótipo do cigano preguiçoso e ladrão, que existe há séculos, tinha ganhado uma camada nova, ao menos para mim.

É um mecanismo muito conhecido. Quando a economia aperta, o ressentimento precisa de destino. E as minorias são o destino mais antigo do mundo. O modus operandi que a gente conhece muito bem.

Eu já conhecia um pouco da história cigana. Sabia da origem indiana, das rotas de migração, das perseguições que atravessam séculos. Mas ver aquele ódio dito sem cerimônia, como quem comenta o tempo, por pessoas que nunca tinham parado para perguntar quem essa gente era, me fez querer ir mais fundo. E este texto é o resultado disso.

A ironia maior na história dos ciganos é que um povo acusado de não ter raízes tem raízes muito profundas e rastreáveis. A origem do povo cigano remonta ao subcontinente indiano do norte, nas regiões dos atuais Rajastão, Punjab e Haryana. Evidências linguísticas, especialmente da língua romani, que compartilha raízes com dialetos do centro e norte da Índia, apoiam essa origem com bastante solidez.

O romani é praticamente uma cartografia histórica ambulante. Estudos linguísticos identificaram empréstimos do persa, do caucasiano, do grego e do eslavo, cada um correspondendo a um período diferente da longa rota migratória, que teria deixado o subcontinente indiano por volta do ano 1000 d.C., atravessando o que hoje são Afeganistão, Irã, Armênia e Turquia.

Pra ficar mais simples pra explicar, essa migração se dividiu em dois grandes fluxos: um que se espalhou pela Ásia e norte da Europa, dando origem à denominação povo Rom; outro que passou pelo Egito, e daí vem os termos gypsy, tsigane, gitano e cigano, e se espalhou pelo norte da África, Península Ibérica e sul da Europa.

É fundamental ter isso claro: ciganos não são um povo homogêneo. Na Europa, são subdivididos em diversos grupos étnicos, os Rom, presentes na Europa centro-oriental e, a partir do século XIX, nas Américas; os Sinti, encontrados na Alemanha e em áreas germanófonas da Itália e da França; e os Caló, os romanis da Península Ibérica, também presentes em outros países da Europa e na América, incluindo o Brasil. Cada um desses grupos tem língua própria, costumes distintos, histórias particulares de deslocamento. O que os une, definitivamente, não é uma característica étnica uniforme, e sim, a experiência compartilhada de ser, em todo lugar, o estrangeiro permanente.

Um dos mitos mais persistentes sobre os ciganos é o do nomadismo como vocação, como se perambulassem pelo mundo por pura disposição à liberdade, por não querer ter elos fortes. A realidade não é tão simplista assim, é mais dura e mais política.

A maior razão da constante migração foi procurar oportunidades negadas no país de origem e fugir do racismo que ajuda a perpetuar a marginalização. Em muitos casos, o nomadismo não foi opção, foi imposição. Em Portugal, a legislação anterior ao 25 de Abril não permitia que a comunidade cigana estivesse mais do que 24 horas no mesmo local, obrigando assim esses grupos a estar em constante deslocação. Andar não era liberdade, mas a única saída legal que restava.

O nomadismo que surgiu nos povos ciganos não nasceu de uma característica da própria cultura, mas foi incorporado em decorrência de políticas de expulsão em diversos países ao longo da história. Existe uma diferença enorme entre um povo que escolhe o movimento e um povo que foi impedido de parar.

Hoje, esse retrato mudou bastante. Apesar de os ciganos estarem sempre associados a um estilo de vida nômade, 95% dos ciganos europeus têm moradia fixa. No Brasil, os nômades representam apenas 10 a 15% das comunidades, a maioria tem residência fixa, viaja por algum tempo em rota pré-determinada e volta. O estereótipo, porém, sobrevive à realidade. E é exatamente aí que começa o problema.

Os romanis terão entrado em Portugal na segunda metade do século XV, pela fronteira da Estremadura espanhola, e rapidamente ganharam uma má reputação entre os portugueses. Em 1526, D. João III foi o primeiro rei a institucionalizar a discriminação contra os romanis, ordenando que fossem expulsos os que estavam no Reino e que fosse impedida a entrada de outros. Coincidências à parte, foi justamente nessa região que percebi o mais profundo ódio direcionado aos ciganos.

O que se seguiu nas décadas e séculos seguintes foi um catálogo de violências legalmente sancionadas. As perseguições incluíram expulsão para a Espanha, açoitamento em praça pública, expatriação dos homens para as galés, pena de morte, embarque forçado de famílias para o Brasil e para África, proibição do uso da língua, do traje e das profissões tradicionais, e apropriação legal de bens e mercadorias.

Na Europa Central e no Leste, o horror chegou ao seu ponto mais extremo durante o nazismo. Estima-se que entre 500 mil e 1,5 milhão de ciganos foram assassinados nos campos de concentração, um genocídio que ficou por décadas sem o reconhecimento oficial que o Holocausto recebeu. Em romani, esse extermínio tem nome próprio: Porajmos, que significa “devoração” ou “destruição”.

Esse passado que não é uma história distante, ainda habita o presente com muita eficiência e dor.

Os ciganos romanichéis são a maior minoria étnica da Europa, com cerca de 6 milhões vivendo na União Europeia. O Roma and Travellers Survey 2019, da Agência dos Direitos Fundamentais da UE, demonstra que 45% dos ciganos e viajantes se sentiram discriminados em pelo menos um setor, entre eles educação, emprego, moradia e saúde. Quase a mesma proporção, 44%, experienciou situações de assédio motivado por ódio no período de apenas 12 meses anteriores ao inquérito.

O relatório “Ciganos em 10 países europeus” revela que 80% da população cigana avaliada vive abaixo do limiar de pobreza de seus países. O documento expõe um cenário alarmante de exclusão, marginalização, racismo e desigualdade sistêmica em áreas cruciais. Se formo comparar a uma média europeia de 17%, esse número reflete uma discrepância ainda maior. Sendo que em Portugal, o mesmo país onde ouvi aquele ódio no Alentejo, 96% das pessoas ciganas estão em risco de pobreza e 63% das crianças vivem em privação material severa.


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Na Itália, as autoridades municipais de Roma mantêm populações ciganas à margem da sociedade através de um sistema de habitação social concebido para condenar milhares de pessoas de etnia cigana a condições abaixo do aceitável, com base em critérios de pura discriminação étnica.

Não estamos falando de um preconceito residual que o tempo vai apagando sozinho. Estamos falando de uma estrutura, de um sistema que se reproduz independentemente da consciência de quem o opera.

Quando falo que os ciganos chegaram ao Brasil, é necessário ser mais precisa: eles chegaram da forma mais violenta possível. Deportados.

Os primeiros a chegar foram os Calon, vindos de Portugal, a partir de políticas de deportação da coroa para suas colônias, em 1574. A Bahia foi o ponto de entrada. No bairro da Mouraria, em Salvador, e em Santo Antônio Além do Carmo, os ciganos eram colocados para servir de guardas ou até aprisionados, e dali começaram os processos de fuga para os sertões da Bahia e do Recôncavo, e a migração para o interior do país.

No Brasil, são reconhecidos três grupos ciganos, diferenciados pela procedência europeia e pela língua: os Calon, os Rom e os Sinti. Os Calon foram os primeiros a chegar, vindos da Península Ibérica. Os Rom são provenientes da Europa Central e do Leste, com chegada mais tardia, no século XIX. Já os Sinti chegaram principalmente na época da II Guerra Mundial, fugindo do nazismo. Porém, muitos optaram por não se identificar como ciganos para não serem deportados. Na época de Vargas, inclusive, dois decretos chegaram a proibir expressamente o desembarque de ciganos no país.

Hoje, entre 800 mil e um milhão de pessoas se identificam como ciganos no Brasil, de acordo com o IBGE. Os estados da Bahia, Minas Gerais e Goiás apresentam as maiores concentrações de assentamentos ciganos. Nas cidades coloniais do Rio de Janeiro e de Salvador, os povos ciganos construíram territorialidades étnicas, integraram as fortificações costeiras na qualidade de soldados, trabalharam em obras públicas e realizaram espetáculos culturais. Uma presença que raramente aparece nos livros de história, mas que esteve lá, desde o começo.

É impossível falar de ciganos apenas pela chave da perseguição. Porque o que é notável nesse povo é o quanto sobreviveu.

O povo cigano tem uma língua própria, manifestada em diferentes dialetos, com origem na língua hindu e no sânscrito. Essa língua funciona também como código que estabelece a base dos laços sociais e familiares dentro e entre comunidades. Dentro da família cigana, os velhos e as crianças ocupam uma importância fundamental, os mais velhos representando a preservação do conhecimento predominantemente oral desta comunidade, e as crianças representando o futuro e a sobrevivência da cultura.

Os ritmos ciganos influenciaram profundamente a música erudita e popular europeia, do flamenco ao jazz húngaro, de Liszt a Django Reinhardt. Quem tem alguma memória dessa tradição no corpo — e eu tenho, de anos como bailarina de ritmos cigano — sabe que não é decoração. Vai muito além, é memória em movimento. É o jeito que um povo sem arquivos escritos guarda o que não quer perder.

No Brasil, os ciganos e ciganas estão espalhados pelo país como artesãos, operários, músicos, artistas, professores, profissionais liberais, empresários e funcionários públicos, enquanto lutam, há centenas de anos, por representação, inclusão e reconhecimento.

“Já temos registros de ciganos transitando desde o século XII”, disse o cientista social Davi Bellan. “Eles já passaram pela queda do absolutismo, pelas guerras mundiais, pelos campos de concentração, pelas mudanças de sistemas. E sempre nas margens. Nós sabemos como os sistemas culturais majoritários se comportam com quem vive nas margens.”

Voltei de Portugal em 2018 com uma pergunta que não me largou mais: como é possível odiar tanto quem você não conhece?

A resposta, descobri, é perturbadoramente simples: é exatamente por não conhecer.

Luís Pascoal, do Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas de Portugal, considera que a ideia que as pessoas têm dos ciganos é “perfeitamente preconceituosa” e que o fenômeno da discriminação da população Roma está tão enraizado na cultura portuguesa que “a simples palavra ‘ciganos’ tem uma conotação negativa”.

No Brasil não é diferente. A invisibilidade do tema nos currículos escolares, nos museus, nos espaços de memória, alimenta um estereótipo que nunca é confrontado com a realidade. O histórico de perseguição e racismo faz com que muitos ciganos não assumam sua ascendência publicamente e não procurem equipamentos públicos por medo de represália. O preconceito gera invisibilidade. A invisibilidade retroalimenta o preconceito.

Eu penso às vezes na ancestralidade que carrego, incerta, não documentada, só falada em voz baixa dentro da família. E penso que talvez seja exatamente isso o que o apagamento faz: transforma histórias em sussurros, depois transforma sussurros em silêncio. E o silêncio, a gente aprende, nunca é inocente.

Os ciganos não são um mistério. São um povo com história, língua, família, música, resistência. São vizinhos que a Europa sempre tentou expulsar para mais longe, deportados que o Brasil herdou sem reconhecer, crianças que vivem em privação severa enquanto o Parlamento Europeu ainda debate como garantir seus direitos básicos.

E são, também, as pessoas que eu vi sendo odiadas numa tarde quente no Alentejo por alguém que nunca parou para perguntar quem elas eram.

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