Dicas & Destinos

O Centro do Rio que poucos conhecem

Existem lugares que carregamos dentro da gente muito antes de aprender o nome deles. O Centro do Rio é o Brasil sem maquiagem e é exatamente por isso que ele nunca me largou

Centro do Rio que poucos conhecem

Tem gente que acha o Centro do Rio barulhento demais. Caótico. Que passou da hora de ser abandonado pelo tempo e pelas pessoas que insistem em não enxergá-lo. Eu nunca consegui pensar assim. Para mim, o Centro sempre foi o lugar onde o Rio para de fingir que é outra coisa e se mostra como realmente é: denso, contraditório, vivo de um jeito que nenhuma orla, nenhum bairro novo, nenhum shopping consegue imitar. O Centro do Rio é o Brasil sem maquiagem. E é exatamente por isso que eu não consigo parar de amar.

Mas não foi sempre que eu soube nomear essa sensação. Ela começou muito antes, quando eu ainda era adolescente e usava o Centro como território de descoberta, quase sem saber o que estava descobrindo.

Eu me lembro da atmosfera. É sempre por aí que a memória começa, bem antes dos nomes, antes das datas, antes de qualquer coisa que eu consiga organizar em palavras. O Centro do Rio tem uma textura que é só dele: o barulho que chega de todas as direções ao mesmo tempo, as vozes misturadas com buzinas e gritos de ambulantes, o rangido metálico dos ônibus dobrando esquinas que foram desenhadas para carroças. As calçadas sempre cheias, sempre em movimento, sempre com alguém indo com urgência para algum lugar que você não conhece. E no meio de todo esse caos, de repente, uma porta aberta, uma livraria, um sebo, um boteco escuro com café passado na hora, uma igreja com o interior em silêncio absoluto, como se o mundo lá fora não existisse. O Centro do Rio é feito dessas interrupções. De lugares que param o tempo enquanto o tempo lá fora não para nunca. 

Eu andava. Muito. Sem destino certo, sem roteiro, sem o aparelho que hoje todo mundo segura na palma da mão como se fosse uma bússola obrigatória. Entrava numa rua porque ela tinha uma esquina interessante. Parava diante de um prédio porque alguma coisa na fachada me prendia, podia ser uma janela alta, um detalhe de cantaria, uma data gravada na pedra que não fazia sentido nenhum para mim mas que claramente fazia sentido para alguém, em algum momento que eu não tinha vivido.

Centro do Rio que poucos conhecem

Não sabia, naquela época, que estava fazendo, de certa forma, exercícios de antropologia, de arqueologia. Pensava que estava só andando.

O barulho também faz parte. E o Centro do Rio é sonoro de um jeito quase agressivo com suas buzinas, com os “chip da Claro é dez real!!”, com o rangido dos bondes que já não existem mais mas que parecem ainda ecoar nas pedras portuguesas de certas ruas, hoje sendo substituídos em parte pelo VLT… o murmúrio constante de uma cidade que nunca para completamente, nem nos feriados, nem nas crises. Tem uma energia no Centro que não é euforia nem desespero, soa mais como persistência mesmo. Um lugar insiste em existir, em funcionar, em pulsar, apesar de tudo que a história já jogou e apagou sobre ele.

E a história jogou muita coisa.

Se eu tivesse que escolher um único ponto de partida para entender o Rio de Janeiro, e, por extensão o Brasil, eu escolheria o quadrilátero que vai da Praça Tiradentes até a Rua Uruguaiana, passando pelo Largo de São Francisco de Paula. Não porque seja o lugar mais bonito, nem o mais famoso, nem o mais fotografado. Mas porque é, junto com a região da Praça XV, provavelmente, o quilômetro quadrado onde mais coisas decisivas aconteceram na história deste país.

Nesse espaço que se percorre a pé em menos de quinze minutos, aconteceu o seguinte: Tiradentes foi executado. D. Pedro I jurou a Constituição. As primeiras sessões da Academia Brasileira de Letras aconteceram numa biblioteca fundada por imigrantes portugueses. Escravizados construíram uma igreja que virou catedral e depois quartel-general do movimento abolicionista. Engenheiros aprenderam a calcular pontes num prédio que deveria ter sido uma catedral e acabou sendo uma universidade. José Bonifácio, o homem que arquitetou a Independência e defendeu o fim da escravidão sessenta e cinco anos antes da Lei Áurea, tem sua estátua bem no centro de uma praça que por séculos foi o endereço preferido dos comícios, das revoltas, inclusive, a famosa Revolta da Vacina, além de vários protestos populares do Rio.

Tudo isso num raio de quinze minutos a pé.

E no meio de tudo isso, tem uma confeitaria fundada em 1860 que ainda serve café e doces maravilhosos. E uma biblioteca com a primeira edição d’Os Lusíadas. E uma igreja pequena onde Tiradentes ouviu sua última missa antes de ser enforcado. E um teatro que foi construído para a Corte portuguesa e que viu, da sua sacada, o Brasil começar a virar Brasil.

Centro do Rio que poucos conhecem

Nenhum outro lugar do país concentra tanto em tão pouco espaço. E é sobre esse lugar que esta série vai falar.

Eu poderia dizer que esta série nasceu de um impulso jornalístico, a necessidade de documentar, de registrar, de preservar memória. Seria verdade, mas seria incompleto.

A verdade mais inteira é que esta série nasceu de uma dívida pessoal. O Centro do Rio me formou muito antes de qualquer universidade, muito antes de qualquer livro, muito antes de qualquer aula. Foram as ruas dali que me ensinaram a prestar atenção, nas fachadas, nas datas, nos nomes das ruas que guardam histórias que ninguém conta nas aulas de história. Foram as caminhadas por aquele território que me fizeram entender, sem ainda ter vocabulário para isso, que o Brasil é um lugar de camadas, que sob cada coisa que vemos existe outra coisa, mais antiga, mais complexa, ainda mais reveladora.

Demorei décadas para aprender a nomear o que aquelas caminhadas me ensinaram. Agora que tenho as palavras, e que estou, finalmente, quase me formando em Ciências Sociais, bem no coração desse mesmo território, me parece a hora certa de escrever sobre isso.

Esta série vai percorrer esse quadrilátero ponto por ponto. Cada matéria vai ser uma parada, um prédio, uma igreja, uma confeitaria, um personagem, uma revolta. Vamos falar de arquitetura e de escravidão, de fé e de resistência, de ciência e de política, de café e de Constituição. Vamos falar do Brasil que foi feito aqui, muitas vezes sem que a maioria dos brasileiros soubesse que estava sendo feito.

E vamos começar pelo lugar que eu demorei vinte e oito anos para entrar.

A próxima parada desta série é o prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no Largo de São Francisco de Paula. Um edifício que começou como catedral inacabada, virou academia militar, formou engenheiros por mais de um século e hoje abriga filósofos, historiadores e cientistas sociais. Um prédio que eu olhei de fora por quase três décadas antes de finalmente cruzar suas portas como estudante.

É uma história de espera. E de tudo que o tempo faz com a gente enquanto a gente espera.

Nos vemos lá.


Naira Amorelli é editora do Portal Embarque na Viagem, estudante de Ciências Sociais no IFCS/UFRJ e esta matéria faz parte da série Centro Histórico do Rio — Roteiro pelo Brasil que se fez aqui, uma varredura histórica e cultural pelo quadrilátero entre a Praça Tiradentes e a Rua Uruguaiana, um dos quilômetros quadrados mais carregados de memória do Brasil.

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