Em 2025, nove escolas de samba do Rio de Janeiro levarão para a Sapucaí enredos que mergulham nas religiões de matriz africana

A Sapucaí, do povo, entregue ao amor de quem genuinamente vive pelo carnaval, é outra avenida durante os ensaios técnicos. Não há como contestar. É do povo, para o povo
É a avenida que o povo reconquista. Sem holofotes midiáticos ou ingressos estratosféricos, ela volta a ser um quilombo urbano, onde o amor pelo carnaval respira sem filtros. Cada aplauso das arquibancadas é semente de um espetáculo que germina nos derradeiros dias de fevereiro.
Enquanto as escolas cruzam a Marquês de Sapucaí, ajustando os últimos detalhes sob o céu noturno tingido de luzes e coreografias, o chão treme. Não é apenas a euforia de quem assiste ou o pulsar das baterias: é a força de histórias que insistem em ecoar. Em 2025, nove escolas de samba do Rio de Janeiro levarão para a avenida enredos que mergulham nas religiões de matriz africana. Alguns dizem que é repetição. Eu digo que é respiração.
Há quem critique, como o carnavalesco que recentemente chamou o tema de “desgastante”. Mas pergunto: quantas vezes uma árvore precisa florir para provar que está viva? O candomblé, a umbanda, os orixás não são enredos: são raízes. Raízes que sustentam o próprio carnaval, festa que nasceu nas vielas dos subúrbios, nos terreiros de samba onde negros livres e escravizados inventaram a batucaria como código de liberdade. Repetir essas narrativas não é falta de criatividade — é lembrar que, sem elas, o Brasil perderia sua voz mais autêntica.
Na Mangueira, vejo Exu abrindo caminhos com seu vermelho vibrante. E enquanto a Unidos de Padre Miguel nos ensina como surgiu o candomblé pelas mãos de Iyá Nassô, a Imperatriz Leopoldinense, nos conta o itã de Oxalá, com sua viagem ao reino de Oyó. Cada escola tece sua própria trama, mas o fio é o mesmo: a memória, a reverência às histórias de quem atravessou o Atlântico acorrentado e, no porão dos navios, carregou nos cantos a promessa de que um dia dançaria livre. Esse dia é hoje, é agora, é sempre que um passista gira sob o couro do surdo, transformando dor em coreografia.

O carnavalesco reclama de confusão? Mas a fé africana nunca foi simplória. Ela é complexa como a vida: celebra a morte e o renascimento, honra a fúria e a delicadeza, entende que um mesmo orixá pode ser guerreiro e poeta. Ninguém é uma coisa só. Se os enredos parecem labirínticos, talvez seja porque ainda nos falta olhar com mais humildade. A África não cabe em rótulos fáceis — e o samba, filho dileto dessa herança, sabe disso.
Lembro-me de um senhor que conheci na quadra do Salgueiro que me disse, anos atrás: “O carnaval é o maior terreiro do mundo”. Naquela época, as escolas ainda enfrentavam resistência para levar temas afros à avenida. Hoje, que luxo poder discutir se é “exagero”! É a prova de que a batalha foi, em parte, vencida: as religiões de matriz africana, antes perseguidas, agora são protagonistas. Mas não podemos permitir que toda essa visibilidade se transforme em preconceito. Há quem saia das medidas… A cada crítica que reduz esses enredos a “modismo” ou “canseira”, escuto o eco de um passado que insiste em apagar toda essa poderosa ancestralidade.
Sim, há nove escolas falando de axé em 2025. Nove vezes em que a cultura negra não pede licença, ocupa. Nove vezes em que a Sapucaí vira um quilombo de plumas e lantejoulas. Alguns dizem que é muito. Eu digo que é pouco. Quantas gerações foram silenciadas? Quantos terreiros arderam em chamas? (e ainda ardem até hoje…) Quantos atabaques foram censurados? O samba-enredo é mais que um tema: é reparação.
Quando cada escola cruzar a avenida com seu pavilhão, cultuando seus ancestrais, verei nas lágrimas dos mais velhos a mesma emoção de quem reencontra um amor perdido. Porque não se trata apenas de entretenimento. É ritual. É RESISTÊNCIA. É dizer, a cada verso cantado, que nenhum navio negreiro apagou toda essa capacidade de criar beleza.
Aos críticos que se cansam, sugiro um exercício: feche os olhos durante os desfiles e ouça. Por trás das vozes, há outras vozes. Por trás das melodias, há também os gemidos dos navios, os cânticos dos escravizados, o riso das crianças nos terreiros. O samba-enredo afro não é passado: é presente. É futuro. É o Brasil que, finalmente, se olha no espelho e reconhece: sem a África, não há espelho.

Que venham os nove enredos, dez, vinte. Até o dia em que não precisemos mais contá-los, porque todos entenderão que a cultura negra não é tema — é alicerce. Enquanto isso, seguiremos dançando. Como dizia um verso antigo: “O samba é negro, e negro é a luz que não se apaga”. Em 2025, a Sapucaí será essa luz — intensa, necessária, insubmissa. Axé!
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