Povos indígenas gritam por socorro no Brasil

Cerca de 850 membros de quase quatro dezenas de aldeias indígenas brasileiras estão acampados em Brasília, para lutar pelos direitos às terras indígenas atualmente em consideração nos tribunais e no Congresso do Brasil.

Enquanto legisladores ainda discutem a questão, povos indígenas continuam a ser removidos à força de suas aldeias e até mortos porque a maioria dessas disputas continuam sem solução.

Povos indígenas
Fotos fornecidas pela Equipe de apoio do Tekohá Dje’y

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) existem 817.963 indígenas vivendo no Brasil, o que representa 0,4% da população total do país. Os povos indígenas no Brasil representam 305 grupos étnicos diferentes e falam mais de 270 línguas indígenas.

No entanto, pesquisas mostram que menos de 12,5% das terras estão demarcadas para os povos indígenas, e isso continua sendo uma fonte de tensão.

Um dos exemplos dessa brutalidade mais recente foi o ataque aos Indígenas do território Tekohá Dje’y, em Paraty, município a quatro horas de carro do Rio de Janeiro. 

Eles foram atacados no mês passado, durante um encontro de mulheres indígenas na aldeia, com ameaças, retaliação, tiros e cães de grande porte foram usados para encurralar moradores durante ritual de proteção feito para a placa de identificação da comunidade que seria instalada no mesmo evento.

A aldeia – formada por 32 indígenas das etnias Guarani Mbyá e Nhandeva – bloqueou a entrada da reserva num protesto pacífico contra o suposto roubo de uma placa de identificação instalada para marcar o território.

Em entrevista exclusiva com a vice cacique da aldeia indígena, Neusa Kunhã Takuá, disse que houve tentativas de atropelar seu sobrinho com um carro enquanto ela era ameaçada de prisão. Segundo ela, policiais militares estiveram no local, mas não impediram os ataques.

“À noite, os agressores cercaram nossas casas na aldeia e fizeram disparos. Fomos agredidos verbalmente e fisicamente. A situação é extremamente perigosa para nós. ”

A comunidade disse que a placa, instalada após uma cerimônia tradicional de três dias no início de junho, foi removida à força no dia 9 de junho por cidadãos que se opunham à demarcação da reserva. 

“Estamos enfrentando um violento processo de demarcação”, disse Neusa Takuá, lembrando que recebeu várias ameaças de morte. “Eles estão tentando paralisar, interromper o processo de demarcação.”

Líderes indígenas dizem que sua comunidade vem sofrendo constantes ataques e intimidações há quase dois anos.  “O Tekohá Dje’y está sob ataques diários, sob pressão de grileiros, especuladores imobiliários, proprietários de terras e sob o abandono generalizado dos governos federal e municipal com uma política abertamente antiindígena”, escreveu a comunidade em um comunicado .

Povos indígenas
Fotos fornecidas pela Equipe de apoio do Tekohá Dje’y

De acordo com Neusa Takuá, as autoridades não conseguiram fornecer proteção robusta à sua comunidade, alegando que esses colonos contam com o apoio de legisladores locais que se manifestaram repetidamente contra a demarcação.

É bom lembrar que a aldeia ocupa uma área de interesse de diversos empreendimentos turísticos e do agronegócio, o que aumenta os conflitos por terra.

A Polícia Federal disse em nota para imprensa que tem “agido dentro dos limites de sua prerrogativa, investigando os delitos de jurisdição federal, e de forma preventiva, promovendo o diálogo entre os envolvidos e apoiando os órgãos e autoridades responsáveis”. 

O povo Guarani Nhandeva já ocupou trechos do sul do Brasil, norte da Argentina e leste do Paraguai, de acordo com o Instituto Socioambiental, uma ONG que defende a diversidade ambiental e os direitos dos povos indígenas. 

Com a chegada dos colonizadores europeus, os territórios Guarani tornaram-se palco de disputas devido à importância estratégica da região para os colonos.

A reserva Tekohá Dje’y foi oficialmente reconhecida pela Funai em 2017. Porém, o processo de demarcação no Brasil pode levar anos. Os residentes não indígenas não são obrigados a sair até que a reserva esteja totalmente demarcada e o governo emita uma ordem de despejo.

O Ministério Público Federal informou que solicitou, com urgência, ao governo que avançasse com a demarcação no ano passado, destacando a violência na reserva.

O ataque em Tekoha Dje’y não é um caso isolado. Na reserva Yanomami, no estado de Roraima, os agressores teriam jogado bombas de gás e aberto fogo contra indígenas com armas automáticas em uma série de ataques no mês passado. 

A Reserva Indígena Munduruku, no estado do Pará, também está sob ataque, com garimpeiros ilegais disparando e incendiando as casas de líderes indígenas no final de maio. Nesta semana, as autoridades prenderam o chefe de uma associação de garimpeiros ilegais e o vice-prefeito do município em conexão com o ataque, segundo a Polícia Federal e grupos indígenas.

A violência nas reservas indígenas ocorreu quando cerca de 800 líderes indígenas se reuniram, mês passado, na capital Brasília para protestar contra várias propostas anti indígenas atualmente em tramitação no Congresso. Isso inclui um projeto de lei que permitiria que mineiros ilegais explorassem as reservas indígenas.

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