Planeta Mulher

Ser mulher no Brasil ainda exige coragem

Entre estatísticas alarmantes, violência cotidiana e misoginia digital, mulheres brasileiras ainda organizam suas rotinas em torno da ideia permanente de risco

A violência contra mulheres no Brasil / Foto de Luciana Oliveira – Brasil de Fato

Tem momentos em que acompanhar o noticiário se torna um exercício difícil. Não apenas pela quantidade de informação que circula todos os dias, mas pela repetição de determinados temas que parecem voltar com uma frequência inquietante.

Nos últimos anos, um desses temas tem se imposto de maneira particularmente dura: a violência contra mulheres no Brasil.

Não se trata de um caso isolado que aparece de tempos em tempos, causa indignação momentânea e depois desaparece do debate público. O que se observa é algo muito mais persistente. Uma sucessão constante de episódios que atravessam diferentes cidades, diferentes idades, diferentes classes sociais.

Eles aparecem nas páginas policiais, nos portais de notícias, nas timelines das redes sociais. E quando começam a se acumular, deixam de parecer acontecimentos desconectados para revelar algo mais profundo: um padrão.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Dados divulgados em 2026 com base em levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o país registrou 1.568 feminicídios em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde que o feminicídio passou a ser tipificado no Código Penal brasileiro, em 2015, mais de 13.700 mulheres foram assassinadas por razões relacionadas ao gênero.

Quando feminicídios consumados e tentativas entram na mesma conta, o quadro se torna ainda mais alarmante. Um levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina aponta 6.904 vítimas em 2025, o que equivale, na prática, a quase seis mulheres mortas por dia no país em crimes relacionados à violência de gênero.

Esses dados revelam padrões que ajudam a compreender melhor o fenômeno. Cerca de 80% das mulheres assassinadas são mortas por companheiros ou ex-companheiros. Mais de 60% desses crimes acontecem dentro da própria casa, um espaço que teoricamente deveria representar proteção.

Outro dado que expõe desigualdades históricas profundas é o recorte racial. Aproximadamente 64% das vítimas são mulheres negras, o que indica que violência de gênero e racismo estrutural muitas vezes se entrelaçam.

Quando os números são observados em conjunto, eles desmontam uma ideia bastante difundida de que a violência contra mulheres estaria associada apenas a ambientes considerados perigosos ou a circunstâncias extremas. Na realidade, grande parte desses crimes acontece justamente nos espaços da vida cotidiana.

Quando a análise se amplia para outros indicadores de violência, o cenário permanece igualmente preocupante.

O Brasil registrou 87.545 estupros em 2024, o maior número já contabilizado no país segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Entre as vítimas, 76,8% são crianças ou adolescentes de até 14 anos, o que caracteriza estupro de vulnerável.

Mais uma vez, o ambiente doméstico aparece com destaque. Aproximadamente 68% desses crimes acontecem dentro de casa, muitas vezes cometidos por pessoas conhecidas da vítima.

Esses números ajudam a explicar por que tantas mulheres desenvolvem, desde muito cedo, uma relação particular com o espaço público e com o próprio cotidiano. Ao longo da vida, muitas aprendem a observar comportamentos ao redor, antecipar riscos e avaliar constantemente a segurança das situações em que se encontram.

Pesquisadores da sociologia urbana descrevem esse fenômeno como uma diferença na forma como homens e mulheres experimentam a cidade. Homens, em geral, circulam com uma sensação maior de liberdade. Mulheres, com frequência, circulam administrando possibilidades de perigo.

Para muitas de nós, decisões aparentemente simples acabam exigindo cálculos constantes: caminhar por determinada rua, pegar um carro de aplicativo à noite, entrar em um transporte público vazio ou usar uma roupa específica em determinados contextos.

Esse estado permanente de vigilância não nasce do nada. Ele é construído ao longo do tempo, a partir de experiências individuais e coletivas que se acumulam.

Nos últimos meses, alguns episódios noticiados no país tornaram essa realidade ainda mais evidente.

Uma freira de 82 anos foi estuprada e assassinada dentro de um convento no Paraná. Uma mulher idosa, de 71 anos, foi violentada dentro de um ônibus. Uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo em um apartamento em Copacabana.

À primeira vista, esses casos parecem completamente diferentes entre si. Instituições religiosas, transporte público, ambientes privados. Mulheres idosas, jovens, adolescentes.

Mas quando colocados lado a lado, eles revelam algo inquietante: a violência contra mulheres no Brasil não está confinada a um único espaço.

Ela atravessa igrejas, casas, ônibus, festas, escolas, universidades, hospitais e ruas.

Quando essas histórias são observadas em sequência, o desconforto se torna inevitável. Porque elas mostram que a violência de gênero não é apenas um problema de segurança pública. Ela também é um problema cultural.

Nos últimos anos, outro elemento passou a aparecer com frequência nas pesquisas sobre violência de gênero: a reorganização da misoginia dentro do ambiente digital.

Pesquisadores têm utilizado o termo manosphere para descrever um conjunto de comunidades online que inclui fóruns incel, grupos associados à chamada cultura Red Pill e outros espaços digitais onde circulam narrativas profundamente hostis às mulheres.

Estudos que analisaram essas redes identificaram milhões de mensagens com conteúdo misógino, muitas delas responsabilizando mulheres por frustrações afetivas ou sociais masculinas. Outras pesquisas apontam níveis elevados de discurso tóxico direcionado especificamente ao público feminino.

Esses ambientes acabam funcionando como espaços de socialização. Jovens entram neles buscando respostas para inseguranças pessoais ou dificuldades de relacionamento e acabam encontrando uma narrativa que transforma mulheres em adversárias.

Essa radicalização nem sempre ocorre em fóruns obscuros da internet. Muitas vezes ela aparece diluída em vídeos curtos, podcasts, influenciadores digitais ou perfis de redes sociais que apresentam essas ideias de forma aparentemente banal, às vezes até humorística.

No Brasil, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Fundação Getulio Vargas vêm estudando como essas narrativas se espalham em plataformas como YouTube, TikTok e Telegram.

Quando esse tipo de discurso passa a circular com naturalidade, ele acaba atravessando o mundo offline. A misoginia deixa de ser percebida como algo socialmente inaceitável e passa a aparecer como uma opinião legítima dentro de determinados grupos.

Isso ajuda a explicar por que alguns comportamentos continuam ocorrendo com tanta frequência.

Recentemente, mais um caso: a Delegacia de Defesa da Mulher de Sorocaba passou a investigar um caso de importunação sexual envolvendo uma adolescente de 14 anos dentro de um mercado. Um homem de 48 anos é suspeito de ter cometido o crime.

A importunação sexual passou a ser tipificada no Código Penal brasileiro apenas em 2018, após anos de pressão de movimentos feministas que denunciavam como situações de assédio eram frequentemente tratadas como algo menor.

A pena pode chegar a cinco anos de prisão.

Mesmo assim, episódios como esse continuam acontecendo diariamente em diferentes cidades do país.

Enquanto isso, muitas mulheres seguem aprendendo estratégias de sobrevivência desde muito cedo. Compartilham a localização com amigas ao entrar em um carro por aplicativo, evitam determinadas ruas, prestam atenção a passos atrás delas em corredores vazios ou a olhares que demoram mais do que deveriam.

São comportamentos que acabam sendo incorporados ao cotidiano antes mesmo que muitas meninas consigam compreender exatamente porque precisam agir dessa forma.

No fundo, a pergunta que permanece é simples e profundamente desconfortável ao mesmo tempo: por que ainda vivemos em uma sociedade em que mulheres precisam organizar suas vidas em torno da ideia permanente de risco?

Casos de violência continuam acontecendo com crianças, adolescentes, mulheres adultas e idosas. Eles aparecem em diferentes regiões do país e atravessam diversas instituições sociais.

Isso indica que a discussão não pode se limitar apenas à punição individual de agressores. Ela também envolve a forma como meninos são educados, as expectativas associadas à masculinidade e os padrões culturais que continuam sendo transmitidos ao longo das gerações.

Enquanto mulheres seguem aprendendo estratégias de autoproteção desde cedo, a liberdade plena ainda permanece como um projeto em construção.

Talvez o primeiro passo para transformar esse cenário seja justamente recusar a ideia de que essas histórias são apenas episódios distantes.

Porque a violência contra mulheres no Brasil não acontece em um universo paralelo.

Ela acontece na mesma sociedade em que todos nós vivemos.

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