O mito escolhido pela Imperatriz, repleto de simbolismos, fala de resistência, humildade e redenção

Na Sapucaí, onde mitos viram plumas e histórias ancestrais ganham o ritmo do surdo, a Imperatriz Leopoldinense escolheu ecoar um dos mais profundos ensinamentos do candomblé: o itã das Águas de Oxalá. Não se trata apenas de um enredo, mas de uma reafirmação da memória iorubá em tempos de intolerância religiosa. Ao narrar a saga de Oxalá — o orixá da criação, injustiçado, torturado e resgatado pela força coletiva —, a escola não apenas desfila: reivindica o direito à reparação. Em um Brasil onde religiões de matriz africana ainda são alvo de violência, contar essa história é mais que uma homenagem. É um ato político revestido de axé.
O Itã de Oxalá é repleto de simbolismos, fala de resistência, humildade e redenção. Oxalá, mesmo após ser traído por Exu e agredido pelos guardas de Xangô, não perde sua essência pacífica. Sua prisão injusta desencadeia caos no reino — secas, pestes e fome —, até que Xangô, arrependido, lidera o ritual de purificação com as águas sagradas. A lição é clara: nenhuma sociedade prospera enquanto houver injustiças não reparadas.
A escola parece traduzir, em versos e alas, a mensagem de que a cura coletiva só vem com reconhecimento e ação. Ao retratar a cerimônia das Águas de Oxalá — um ritual de 17 dias que renova esperanças no candomblé —, a Imperatriz não celebra apenas um orixá, mas a força de um povo que, como Oxalá, carrega cicatrizes e ainda assim se levanta.
O Itã de Oxalá
Oxalá — o ancião criador, vestido de branco imaculado — resolve visitar Xangô, senhor dos trovões, em seu reino em Òyó. Antes de partir, consulta um Bàbálawo, sábio das palavras de Ifá, que desaconselha a viagem. Mas Oxalá, firme em sua decisão, ouve o aviso crucial: Leve três mudas de roupa branca, pois Exu há de atravessar seu caminho. Segue também com panos brancos, limo-da-costa e sabão-da-costa, armas simbólicas contra as armadilhas do destino. A condição? Aceitar, sem murmúrios, tudo o que lhe pedissem na travessia. Era o preço para preservar a vida.
Assim começa a peregrinação. Na mata fechada, Exu — orixá mensageiro — aparece carregando um tonel de dendê. Pedindo ajuda, derrama o líquido vermelho sobre Oxalá, manchando sua pureza alva. O velho orixá, impassível, banha-se no rio, veste nova roupa e segue. Mais adiante, Exú ressurge com um saco de carvão. Repete-se o jogo: ajuda solicitada, carvão despejado, banho purificador. Na terceira investida, é um tonel de melado que gruda na brancura de Oxalá. Três vezes sujo, três vezes lavado. Três provações para testar não a força, mas a paciência — virtude dos que entendem que a jornada é maior que as quedas.
Ao avistar as terras de Xangô, Oxalá encontra um cavalo branco fugido dos estábulos. Movido por benevolência, decide devolvê-lo. Mas os guardas do reino, cegos pela desconfiança, acusam-no de ladrão. Sem chance de defesa, quebram seus ossos e o jogam num calabouço, onde Oxalá definha por sete anos. Enquanto isso, o reino de Xangô mergulha no caos: seca arrasa plantações, epidemias dizimam o povo, a terra vira um deserto de desespero.
Atormentado, Xangô busca um Bàbálawo local, que revela a verdade com a crueza dos búzios: A vida apodrece na sua prisão. Um inocente veste branco e carrega o peso da sua injustiça. O rei, então, corre aos calabouços e encontra Oxalá — esquelético, coberto de feridas, mas ainda luminoso como a lua. Arrependido, Xangô convoca todos os orixás para um ritual de expiação. Cada um traz um pote com água da mina, sagrada e fresca, e um a um derramam sobre Oxalá, lavando-lhe a dor, a sujeira, a mágoa.
O reino veste branco, cor da paz e do recomeço. Xangô, em sinal de humildade, carrega Oxalá nas costas até o palácio, onde o povo o saúda como Oxaláufã — o rei resgatado. Naquele instante, as nuvens rompem-se: chove sobre Òyó, as plantações florescem, as doenças recuam. A terra, antes amaldiçoada, renasce.
A mensagem de tolerância através do samba
Em um contexto nacional marcado por aumento de casos de intolerância religiosa, narrar o itã de Oxalá é resistir. A escolha da escola reflete o carnaval como espaço de denúncia: assim como o reino de Xangô entrou em colapso ao prender inocentes, o Brasil enfrenta suas próprias “secas” quando silencia vozes ancestrais.
Ao vestir a Sapucaí de branco — cor de Oxalá e símbolo da paz —, a Imperatriz lembra que o samba-enredo é também um rio. Corre sobre feridas abertas, lava o que foi sujo pelo preconceito e, no seu fluxo, carrega a promessa de que nenhum orixá, nenhuma cultura, será apagado. Como nas águas do ritual, cada refrão cantado pela escola é um gesto de limpar, honrar e seguir.
Em 2025, a Sapucaí ouvirá o recado: não há futuro sem memória. E, enquanto a Imperatriz desfilar, ecoará o mesmo aviso que Xangô recebeu do Bàbálawo: A vida só floresce quando a justiça é feita. No caso do Brasil, a justiça começa pelo reconhecimento — e o samba, mais uma vez, aponta o caminho.
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