No aniversário do Rio de Janeiro, uma viagem histórica pela cidade que cresceu no Morro do Castelo, se reinventou com a chegada da corte portuguesa e foi redesenhado pela República, nem sempre para todos

O Rio de Janeiro faz aniversário todos os anos, mas poucas cidades no mundo carregam uma história tão cheia de camadas quanto aquela que se espalha entre o mar e os morros da Baía de Guanabara. Há algo nesta cidade que escapa às definições simples, uma mistura constante de encanto e contradição que faz com que seja impossível permanecer indiferente a ela. Nós, do Portal Embarque na Viagem, e especialmente eu, esta escritora apaixonada por cada uma dessas paisagens e histórias, não poderíamos deixar uma data tão simbólica, como o aniversário do Rio de Janeiro, passar em branco. Reuni, então, o afeto que sinto pela minha cidade a alguns de seus momentos históricos mais marcantes e convido você a caminhar comigo por essa memória viva, tentando compreender, passo a passo, como esta cidade se tornou o que vemos hoje.
Antes dos cartões-postais, das praias famosas e das avenidas monumentais, existiu uma cidade erguida como fortaleza militar, sustentada pelo trabalho escravizado e constantemente reinventada por projetos de poder que nem sempre incluíram todos os seus habitantes.
Celebrar o Rio, portanto, não é apenas admirar sua beleza. É compreender como essa paisagem foi construída: quais histórias foram preservadas, quais foram apagadas e quem pagou o preço do chamado progresso.
Do antigo Morro do Castelo às grandes reformas da República, esta é uma viagem pela história do Rio de Janeiro além da superfície, uma cidade onde encanto e desigualdade cresceram lado a lado.
O nascimento da cidade e o Morro do Castelo
O Rio de Janeiro foi fundado oficialmente em 1º de março de 1565, quando Estácio de Sá estabeleceu o primeiro núcleo português na região da Baía de Guanabara. Esse primeiro assentamento surgiu aos pés do morro onde hoje se encontra o Pão de Açúcar, na área da atual Urca, em meio a um cenário marcado por disputas territoriais entre portugueses, franceses e povos indígenas que resistiam à ocupação colonial europeia.
A localização tinha importância estratégica para a defesa da entrada da baía, mas era pouco favorável ao desenvolvimento urbano. Cercado por conflitos constantes e dificuldades de permanência, o núcleo inicial funcionava mais como um posto militar avançado do que como uma cidade propriamente dita. Somente após a consolidação do domínio português na região é que o povoamento foi transferido para o Morro do Castelo, na área do centro da cidade, atualmente, onde o relevo elevado permitia melhor vigilância do território e maior organização administrativa.

Foi ali que o Rio começou, de fato, a se estruturar como cidade.
O Rio surgiu como uma cidade militar antes de se tornar uma cidade cultural. Ruas estreitas, igrejas e prédios administrativos formavam o centro colonial, enquanto a economia local dependia profundamente do trabalho de pessoas escravizadas trazidas da África. Desde o início, o espaço urbano carioca foi organizado por hierarquias sociais rígidas, marcadas por raça e classe.
Séculos depois, o escritor carioca Machado de Assis, atento observador da sociedade do século XIX, sintetizaria com ironia as contradições daquela elite que prosperava em meio à desigualdade:
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
Machado de Assis
1808: quando uma fuga europeia transformou o destino do Rio
A grande virada na história do Rio de Janeiro aconteceu em 1808, e começou longe dali, nos conflitos que redesenhavam a Europa. Com o avanço das tropas de Napoleão Bonaparte sobre Portugal, a monarquia portuguesa enfrentava uma escolha extrema: submeter-se ao domínio francês ou abandonar o continente.
A decisão foi inédita na história moderna. Com apoio da Inglaterra, a família real portuguesa atravessou o Atlântico e transferiu a sede do Império para o Brasil. Não se tratava apenas de uma viagem diplomática, mas de uma fuga estratégica que deslocou o centro do poder europeu para uma colônia americana.
Quando Dom João VI chegou ao Rio de Janeiro, encontrou uma cidade que, embora já fosse capital do vice-reino desde 1763, ainda possuía infraestrutura limitada e características urbanas muito distantes dos padrões europeus. Salvador, antiga capital colonial, havia concentrado por séculos maior desenvolvimento administrativo e urbano. O Rio, apesar de politicamente central, ainda crescia de maneira desigual e improvisada.
A presença da corte mudou essa realidade de forma acelerada.
De repente, a cidade precisava funcionar como capital de um império. Ruas foram alargadas, prédios adaptados, residências requisitadas para abrigar nobres e funcionários da administração real. A vida cultural e institucional ganhou impulso inédito: surgiram bibliotecas, teatros, academias científicas, espaços de circulação intelectual e estruturas administrativas que permitiram ao Brasil deixar de ser apenas uma colônia exploratória para assumir funções de Estado.
A abertura dos portos às nações amigas rompeu o antigo monopólio comercial português e ampliou o fluxo econômico. O Rio passou a receber produtos, ideias e costumes europeus em escala muito maior. Modos de vestir, hábitos sociais e práticas culturais foram gradualmente incorporados ao cotidiano urbano, criando uma cidade que buscava se aproximar simbolicamente da Europa.
Essa transformação trouxe ganhos concretos para o Rio de Janeiro. A cidade expandiu seu comércio, diversificou serviços e consolidou-se como centro político, econômico e cultural do território brasileiro. Ao mesmo tempo, essa europeização convivia com uma contradição profunda: a modernização institucional avançava enquanto a escravidão permanecia como base da estrutura social.
O Rio tornava-se mais cosmopolita, mas continuava profundamente desigual.

A República chega sem o protagonismo popular
Quando a República foi proclamada em 1889, o Brasil não viveu uma revolução popular nos moldes clássicos. O novo regime nasceu de um golpe militar, liderado por setores do Exército e apoiado por parte das elites políticas e econômicas insatisfeitas com a monarquia.
Embora ideias republicanas circulassem havia décadas e encontrassem simpatia em diferentes camadas sociais, a mudança de regime não ocorreu por mobilização direta da população. O povo assistiu à queda do Império mais como espectador do que como protagonista.
No Rio de Janeiro, então capital federal, a República precisava construir rapidamente sua legitimidade. E escolheu fazer isso por meio da transformação visível da cidade.
Modernizar o espaço urbano tornou-se uma forma de anunciar um novo tempo político.
Nas primeiras décadas do século XX, grandes reformas alteraram profundamente a paisagem carioca. Inspirados em modelos europeus, especialmente nas reformas de Paris, governantes republicanos promoveram demolições em larga escala, abriram avenidas monumentais e ergueram edifícios públicos que simbolizavam ordem, progresso e civilização.
A antiga Avenida Central, atual Rio Branco, tornou-se o principal símbolo dessa nova capital republicana. O Theatro Municipal, a Biblioteca Nacional e a Escola Nacional de Belas Artes surgiram como marcos arquitetônicos de um país que desejava se apresentar como moderno e sofisticado diante do mundo.
Mas a modernidade veio acompanhada de exclusão.
Cortiços foram demolidos, populações pobres removidas do centro e práticas culturais populares passaram a ser vistas como obstáculos ao projeto civilizatório. A reforma urbana buscava não apenas reorganizar a cidade, mas também disciplinar seus habitantes e redefinir quem poderia ocupar os espaços valorizados.
A destruição do Morro do Castelo, poucos anos depois, consolidaria esse processo: apagar o passado colonial e popular para construir uma imagem republicana alinhada aos padrões europeus.
Assim, a República redesenhou o Rio de Janeiro ao mesmo tempo em que aprofundou desigualdades sociais que permanecem visíveis na cidade contemporânea.

Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil. Coleção Brasiliana.
Doação da Fundação Estudar, 2007
O Morro do Castelo desaparece e nasce outra cidade
O processo atingiu seu ponto mais simbólico entre 1920 e 1922, quando o Morro do Castelo, berço histórico da cidade, foi completamente demolido.
O argumento oficial falava em higiene, ventilação e modernização urbana. Na prática, milhares de moradores pobres foram removidos do centro sem alternativas habitacionais adequadas.
O desaparecimento do morro representou mais do que uma obra urbana: foi o apagamento físico da própria origem do Rio.
Sem opções, populações deslocadas ocuparam encostas e regiões periféricas, contribuindo para a expansão das favelas cariocas. A modernidade republicana produzia, simultaneamente, beleza arquitetônica e exclusão social.
O cronista João do Rio, atento às ruas e seus personagens, escreveu:
“A rua tem alma.”
Fonte: A Alma Encantadora das Ruas
E essa alma continuava existindo mesmo quando os projetos oficiais tentavam reorganizá-la.
Uma cidade feita de permanências e reinvenções
Ao longo dos séculos, o Rio deixou de ser apenas uma fortaleza colonial para tornar-se capital imperial, vitrine republicana e centro cultural global. Cada período acrescentou novas camadas sem apagar completamente as anteriores.
O samba, a literatura, as festas populares e as religiões afro-brasileiras nasceram justamente dessa convivência entre conflito e criação, exclusão e resistência.
Celebrar o aniversário do Rio de Janeiro é reconhecer essa complexidade: uma cidade construída tanto por decisões políticas quanto pela experiência cotidiana de quem a habita.
Caminhar pelo Rio é caminhar sobre muitas cidades
Hoje, quem percorre o Centro Histórico talvez não perceba que caminha sobre diferentes tempos históricos ao mesmo tempo.
Sob o asfalto moderno existiram ruas coloniais.
Onde hoje passam avenidas largas existiram morros inteiros.
E por trás das paisagens admiradas por visitantes permanecem histórias de luta, adaptação e reinvenção.
A Cidade Maravilhosa chega a mais um aniversário, celebrando seus 461 anos, lembrando algo essencial: cidades não são feitas apenas de paisagens, mas de escolhas, disputas e pessoas.
Talvez seja justamente essa mistura de beleza e contradição que torne o Rio de Janeiro impossível de simplificar e eternamente fascinante.
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