Dicas & Destinos

Nas ruínas de Whitby: entre o Mar do Norte e o Mito de Drácula

A Abadia de Whitby, no topo de um penhasco, é um desses cenários em que o vento marítimo e a névoa constante constroem uma atmosfera inesquecível

Abadia de Whitby
Abadia de Whitby by Anna Cicicic – Unsplash

Alguns lugares no mundo dão a impressão pra gente que a paisagem parece sussurrar histórias antes mesmo da gente dar o primeiro passo. E nós aqui, do Portal Embarque na Viagem, que somos apaixonados por essa  temática de mistério e suspense, resolvemos lançar uma série falando sobre destinos com essa proposta pelo mundo. A gente começa nossa viagem pelo nordeste da Inglaterra, pela Abadia de Whitby, erguida no topo dos penhascos da costa de Yorkshire. E esse é exatamente um desses cenários em que o vento marítimo e a névoa constante constroem uma atmosfera inesquecível.

Visitar este recanto no litoral inglês é mergulhar em séculos de fé, invasões vikings e, claro, uma profunda tradição literária. As ruínas imponentes e sem teto voltadas para o temido Mar do Norte desafiam o tempo e fascinam viajantes que buscam destinos que vão muito além do óbvio.

Seja pela busca de paisagens dramáticas ou pelo fascínio das lendas que cercam a região, o vilarejo de Whitby entrega uma experiência cultural rica, assim como outros destinos europeus repletos de história e castelos medievais. Um porto histórico onde o passado medieval convive em perfeita harmonia com a rotina dos pescadores locais.

Fundada originalmente no século VII, por Santa Hilda, como um mosteiro duplo, abrigando tanto monges quanto freiras, a Abadia de Whitby começou como um dos centros religiosos e culturais mais importantes da Grã-Bretanha anglo-saxã. Foi ali que se decidiu a data da Páscoa para a Igreja Cristã na Inglaterra durante o famoso Sínodo de Whitby, em 664.

No entanto, a localização costeira vulnerável fez da abadia um alvo fácil para os ataques vikings no século IX, deixando o local abandonado por mais de dois séculos. O prédio com as ruínas góticas admiradas hoje foi reconstruído pelos beneditinos a partir do século XIII, exibindo arcos ogivais majestosos e grandes janelas rendilhadas.

A decadência definitiva veio com a dissolução dos mosteiros promovida pelo rei Henrique VIII no século XVI. Hoje, mesmo sem o seu teto e sem  suas paredes externas completas, a estrutura remanescente ostenta um porte magnânimo que domina todo o horizonte do vilarejo marinho. 

Nenhuma narrativa sobre Whitby está completa sem mencionar o verão de 1890, quando o escritor irlandês Bram Stoker se hospedou na cidade para descansar. Atingido por uma intensa tempestade e fascinado pelo cenário sombrio da cidade, Stoker encontrou ali o ambiente perfeito para ambientar sua obra-prima gótica.

Ao passear entre as lápides do antigo cemitério da Igreja de St. Mary, que fica bem ao lado das ruínas da abadia, e ao ouvir os pescadores locais contarem histórias sobre naufrágios, o autor moldou passagens marcantes do romance Drácula, publicado em 1897.

No livro, o conde vampiro chega à Inglaterra a bordo do navio russo Demeter, que encalha na baía de Whitby durante uma tempestade avassaladora. Mudando de forma, o personagem corre na representação de um cão negro gigantesco subindo os 199 degraus de pedra que levam do porto até as ruínas no topo do penhasco.

Além da evidente aura mística, Whitby preserva tradições culturais marítimas muito fortes. A subida dos chamados 199 Steps (Os 199 Degraus) é um rito de passagem obrigatório para os visitantes, oferecendo uma vista panorâmica deslumbrante dos telhados vermelhos da cidade histórica e do porto.

O vilarejo também é nacionalmente reconhecido por servir um dos melhores Fish and Chips (peixe frito com batatas) de todo o Reino Unido, preparado com peixe fresco trazido diariamente pelos barcos artesanais. Saborear a culinária local caminhando pelas vielas estreitas de paralelepípedo faz parte da vivência autêntica da região.

Outro patrimônio cultural único é o Whitby Jet, uma gema fóssil negra extraída dos penhascos locais usada desde a época vitoriana para a confecção de joias e amuletos, muito associada ao luto refinado da rainha Vitória.

Se você estiver explorando essa região do condado de North Yorkshire, vale a pena dedicar um dia extra para explorar os arredores próximos que complementam perfeitamente essa jornada histórica:

  • Robin Hood’s Bay (a 8 km de Whitby): Uma antiga e pitoresca vila de pescadores cravada em uma fenda entre penhascos, famosa no século XVIII por ser o porto seguro de contrabandistas que usavam redes secretas de túneis subterrâneos.
  • Parque Nacional North York Moors: Uma vasta reserva natural coberta por urzes roxas e névoa frequente, ideal para caminhadas contemplativas e rotas de trem a vapor histórico.

Abadia de Whitby
Abadia de Whitby: Foto de Steve Payne

  • Como chegar: A forma mais cênica de chegar a Whitby é de trem a partir de York ou Middlesbrough, aproveitando para inspirar sua viagem com nossos 3 roteiros clássicos de trem no Velho Mundo
  • Horários da Abadia: Aberta diariamente das 10h às 17h (horários podem variar no inverno britânico).
  • Ingressos: É recomendável comprar o ingresso antecipadamente no site oficial da English Heritage.

A energia que se sente ao caminhar pelas ruínas da Abadia de Whitby ao final da tarde, quando a névoa do Mar do Norte começa a subir o penhasco, é incomparável. Uma experiência que une a grandiosidade da história medieval à magia da literatura britânica em um só lugar.

A jornada pelos cenários mais enigmáticos do planeta está apenas começando. Depois de explorar o berço britânico onde a lenda de Drácula ganhou vida no papel, nosso próximo destino nos leva direto para as sombras da Transilvânia. Na próxima matéria da nossa série especial, vamos desembarcar na Romênia para descobrir os segredos reais e os mitos do icônico Castelo de Bran. Não perca! 

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